Arte, Textos

Das 9 às 5

1938 Pablo Picasso (Spanish artist, 1881–1973) . Portrait of a Young Girl. 1938.

[Portrait of a Young Girl, Picasso, 1938]

Todos os dias, após um banho afogado em essências cítricas, Madame Lu tirava da gavetinha o seu estojo de maquilhagem e pintava-se à Picasso. Carregava os contornos, fazia-se grotesca – como vira nos quadros do museu do Marais -, e saía à rua tão cubista quanto o seu corpo rotundo lho permitia.

Saindo de casa, seguia escorreita para a Galeria Nacional, onde, fazendo uso de uma presilha de tecido reforçado que mandara coser no exterior do colarinho para esse mesmo efeito, se ia pendurar na parede do fundo, entre Le Rêve The Weeping Woman, para deleite dos visitantes e do curador da exposição.

Hugo Picado de Almeida

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Arte, Cultura, Pensamentos

Pensamentos sobre as «Cenas da Vida Conjugal»

Estive ontem no D. Maria II a assistir às Cenas da Vida Conjugal, de Bergman.

A peça, entre o cómico e o violento, percorre os dias e os anos de um casal que começa por ser normal para depois se tornar anormal e, por fim, surreal. O fim da peça não parece já remotamente possível; torna-se desconfortável e estranhamente onírico, mas quando a cortina baixa e o público se levanta — é bom sinal quando o teatro se concretiza por esta ordem — fica-se devedor da ideia de que o normal não é, afinal, aquilo que supúnhamos. De facto, enquanto os minutos correm pela peça nos vamos apercebendo de que o casal em palco é, afinal, o espelho triste de muitos casais fora dele. Isso não pode deixar de entristecer-nos grandemente.

Nas Cenas, é a vida que é posta em palco, e é muito necessário que algo se tire do palco para a vida, sob pena da Arte perder parte fulgurante do seu conteúdo para se animar apenas com a estética. A estética é importante, claro, até porque os olhos também comem, mas à estética basta uma pedrada, atirada como que sobre um vidro, para que se estilhace. Eu, que sei declaradamente pouco sobre a vida, vejo estas Cenas de Bergman como um manual de normas, uma colectânea de regras, mas apresentado pelo seu inverso: Não faças o que eu faço!

 

Hugo Picado de Almeida

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Arte, Música, Pensamentos

Bati palmas à loucura

No sábado à noite, bati palmas à loucura. O concerto de Lotte Anker, Fred Frith e Ikue Mori na Culturgest foi dos espectáculos mais insólitos que já tive oportunidade de ver. Enquanto Lotte Anker tentava tocar saxofone (dela dizem que é das melhores do mundo, mas talvez noutro registo, quando está verdadeiramente a tocar), Fred Frith atirava contra as cordas da guitarra tudo aquilo que tinha à mão: panos, areia, pedaços de metal, caixinhas de lata, pauzinhos chineses; e Ikue Mori ia produzindo sons no seu computador portátil, que variavam entre ruído branco, chuva metálica, estalidos electrónicos que vagamente lembravam o chilrear de pássaros, e todos aqueles tons típicos das velhinhas máquinas de jogos que havia nos salões…

É bem provável que nunca algo me tenha desagrado e fascinado tanto ao mesmo tempo. Como me disse a Inês, «são adultos a brincar com instrumentos como as crianças», e esta pareceu-me uma definição extraordinária. Estávamos, evidentemente, a ver três pessoas loucas em palco, e essa é uma oportunidade que não se deve perder nem tratar com leviandade.

Aplaudo-lhes o esforço e a coragem, e bem assim a loucura, pois durante uma hora não pararam de tocar (ou de fazer aquilo que estavam a fazer com os instrumentos), e nós, deste lado, loucos também, durante uma hora nos mantivemos ali sentados, e no fim batemos palmas e sorrimos. Eles, no palco, e nós, na plateia, todos acolhendo a loucura para tratar aquela performance como um concerto, todos compenetrados no acarinhar de uma mentira descarada para produzir arte, ou algo que a mimetize.

O nosso erro foi esperar um concerto, quando nos devíamos ter preparado para uma performance.

 

Hugo Picado de Almeida

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Arte, Crise, Cultura, Televisão

A moeda mata a Arte

Parece que a RTP2 vai fechar brevemente. Mais uma vez o adágio popular se confirma: tudo o que é bom acaba cedo.

Isto, porém, não deve surpreender-nos. Acaso esperávamos que um país que não se preocupa nem com a sua saúde nem com o seu futuro depositasse as suas atenções na Cultura?

E o problema não é de agora; o problema está no agudizar da força com que hoje se pisoteia a Cultura. O problema, uma vez mais, reside no capitalismo e nesse bicho-papão que é o mercado, com a diferença de que este existe, claro. O que fazia da Arte, Arte, era o seu valor estético, o seu valor filosófico, o seu valor, por assim dizer, artístico. Isso, porém, reduz-se hoje a um punhado de indivíduos cujos interesses e sensibilidade — e, porque não dizê-lo, uma certa falta de dinheiro para tomar a Arte noutros valores — por aí os levam.

O mercado da Arte é precisamente aquilo que a destrói.

Novamente, a moeda subverteu tudo. E muitos artistas (e outros que por isso se fazem passar) — não por culpa própria, porque também são humanos e também têm, consequentemente, essas estranhas necessidades de comer e de viver — acabam por sucumbir sob os pesados rodados mercantilistas, assim expurgando a sua Arte daquilo que a caracteriza como tal. Temos, hoje, a sensação de que já não há grandes escritores, pintores ou escultores; ouve-se dizer, mais vezes do que seria suportável, que isso da Cultura são coisas de gente morta. Antes, a Arte florescia porque tinha mecenas; porque quem tinha dinheiro — e interesse na Cultura — tomava nos seus encargos um artista cujo trabalho admirava ou considerava importante. Hoje, quem tem dinheiro, recorre aos grandes circuitos do mercado da Arte, e aquilo com que sonha é que as visitas rejubilem ao ver um quadro de quinhentos mil euros pespegado na parede da sala, e que exultem na audição do valor — o seu interesse na Cultura é o interesse pela monetarização da Cultura –, e que se maravilhem o suficiente para não reparar nos exemplares de Nicholas Sparks ou Danielle Steel sobre a mesa do café. Não me interpretem mal: eu também fico todo meloso na presença de um quadro de quinhentos mil euros, mas não é pela numeração na etiqueta.

E apesar de tudo isso, espera-se — com esperança messiânica, certamente –, que os artistas de algum modo continuem a produzir, assim como se espera que Portugal pague as suas dívidas e deixe a crise a comer pó. Não interessa bem de que vivem e como vivem os artistas, mas exige-se que continuem a produzir. Hoje, porém, tal é cada vez mais difícil. Porque hoje a Cultura dominante é a do light — haverá melhor indício de que o que queremos mesmo é comer o mundo, e de que aquilo com que nos preocupamos é com o estômago –, e o artista deve produzir tendo em mente o público, tendo em mente a venda, e raras vezes os verdadeiros artistas têm a sorte de que o público comum aprecie a sua obra. Era artista, mas agora exige-se-lhe também que seja marketeer e prostituto. Por tudo isto, parece que pouco faltará para que sejam os artistas a pedir autógrafos ao seu público.

Resta pegar no governo, mas também em todos esses Homens comuns e cinzentos, como lhes chamava D. H. Lawrence, que por aí andam, pelo colarinho, e bradar-lhes com o bafo bem perto do rosto: É a Cultura, estúpido!

 

Hugo Picado de Almeida

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Arte, Cultura, Literatura, Pensamentos

O bastião da leitura

Há cada vez mais pessoas a ler no Metro. E eu entre elas.

A única coisa que espero é que não tornemos o Metro no último reduto da literatura, como o carro se tornou para o rádio.
E, contudo, parece fazer sentido. A literatura é tantas vezes sovada e pisada que não é de admirar que se arraste pelo subsolo da cidade.

 

Hugo Picado de Almeida

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Arte, Literatura, Livros, Pessoas

Hemingway em Paris

Paris é uma Festa, livro autobiográfico de Ernest Hemingway, é um dos melhores e mais interessantes volumes que já li. Decidi-o. Decidi-o arriscadamente, porque me lembro de o ter decidido quando ia ainda pela página 32, mas a cada nova folha virada me sinto ganhar razão.

O trunfo do livro é ser autobiográfico, em vez de autobiografia chata, género mais comum. É que o livro não é um curriculum vitae posto em prosa, mas sim, como o promete o subtítulo que foi ocultado da capa da edição da Livros do Brasil mas que se encontra dentro do livro, um conjunto de «impressões da vida do autor em Paris, por alturas da segunda década do século XX». É simplesmente isso que o livro é, e é soberbo. Narrado por um mestre como Hemingway, ele próprio personagem principal, o livro consome-se como um romance, ou mais do que isso, por se sabê-lo real.

Este é um livro essencial para quem gostar de ler e/ou de escrever, e tem um bónus para os amantes de Paris, como eu. O livro não testemunha apenas os conhecimentos de Hemingway e os acontecimentos da sua vida, mas também nos leva a passear por tantas ruas conhecidas de Paris, pelos seus bistrots, pelas suas lojas… E como se tudo isso não fosse já recompensa suficiente para o leitor que se dispôs a abrir o livro, há ainda diversas passagens onde Hemingway fala da vida e da Arte, sobretudo da literatura, com a famosa artista e crítica Gertrude Stein, que debateu tanto e tanto aconselhou muitos dos grandes escritores e pintores que hoje idolatramos, Sylvia Beach, a dona da famosa livraria parisiense Shakespeare & Company (a original, não a que hoje existe), Ezra Pound, Scott Fitzgerald, entre outros. O livro é, sobretudo, um percurso pela vida de um Hemingway na casa dos 20, a procurar afirmar-se como escritor na cidade para onde afluíam todos os artistas do início do século XX.

Com isto tudo, fica na boca a sensação de que as melhores histórias são mesmo as verídicas, e a dolorosa sensação de ver, página a página, o livro aproximar-se do fim.

 

Hugo Picado de Almeida

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Arte, Cultura, Política

«Artocracia»

«Artocratie», o primeiro de seis projectos da série Inside Out, de JR

Na Tunísia, após a queda de Ben Ali, seis fotógrafos tunisinos chamaram a si a árdua tarefa de devolver o país ao seu povo. Fizeram-no colando nas ruas de várias cidades fotografias de grandes dimensões de cidadãos anónimos expressando aquilo que cada um desejasse. O gesto ganha relevo quando se pensa que, durante duas décadas, as únicas imagens cuja afixação era permitida nas ruas da Tunísia eram as que representavam a figura do seu líder, sempre nas poses cavaleirescas e estereotipadas da propaganda. Mas muitas fotografias da mesma pessoa expostas na rua não são Arte.

A Arte são as pessoas dentro dela. É por isso que é preciso voltar às Artes. Tirar o excesso político de cena e dar voz ao escasso artístico.
Os momentos de libertação de um povo são momentos propícios à explosão das mais diversas expressões artísticas — pense-se em Berlim depois do muro –, e isso deveria dizer algo aos que hoje querem deixar as Artes à beira do prato.

 

Hugo Picado de Almeida

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