Metro

Histórias a Metro #4

Sabia que isto havia de acontecer um dia; era forçoso que acontecesse: ser castigado pelo que escrevo.

Há poucas semanas, escrevi uma reclamação ao Metro, protestando contra a deterioração do serviço e as condições por vezes nada menos do que nazis em que os passageiros se amontoam nos vagões.

Ontem, decidi escrever novamente a essa mui simpática instituição que rasteja sob a cidade, insurgindo-me, como faço às terças-feiras, contra a forma encapotada como os preços dos passes aumentaram quase 75%, com a tão engenhosa como pouco ética manobra de criar o passe Navegante — esse “passe dos passes” –, mais caro porque alarga os serviços, naturalmente, ainda que o cidadão não os queira usar, eliminando todas as alternativas de passes próprios para cada transporte.

Quando fui para casa, o Metro filou-me com toda a naturalidade, ressabiado, castigando-me. Para começar, parou o meu comboio a meio de um túnel, entre estações, e depois apagou as luzes, antecipando o Halloween em 24 horas para os passageiros das seis da tarde. Depois, aos bochechos, lá chegou à estação do Campo Pequeno, onde decidiu fincar o pé, fazendo birra, anunciando que avariaria para dali não mais sair, fazendo, por sua vez, todos os passageiros abandonarem os túneis e virem à superfície, como lhes faz bem. Quem não gosta, vai a pé!

 

Hugo Picado de Almeida

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Media, Pensamentos

A catástrofe aqui

O furacão Sandy vai atingir Nova Iorque nas próximas horas, e estamos todos ligados a webcams onde secretamente esperamos ver repetido o cenário d’ O Dia Depois de Amanhã, ou de qualquer outro filme da espécie. A catástrofe iminente faz-nos abrandar o carro para ver os acidentados, e o ecrã promete transmitir-nos o desastre em directo. Entre o cinema e o real não há para nós, deste lado do ecrã e do ocenao, qualquer diferença.

Abro o site da Sandycam (o carácter espectacular do evento começa logo aqui, no nome desta webcam) e, antes mesmo de conseguir visualizar o vídeo, a página em branco, a carregar, devolve-me a voz quase computacional, fantasmagórica, policial de um homem que numa voz monocórdica avisa:

«…Serious threat to life and property exists. Damaging winds are expected. Winds will be capable of downing trees and snapping off large tree branches. Power outages can be widespread and last at least several days. Debris will block some roads. Most poorly anchored mobile homes will be damaged. Other homes may have damage to shingles (…) and gutters if these items are not properly secured. Loose outdoor items will become airborne, causing additional damage (…). High windows may be damaged due to flying debris (…)»

E a voz não pára. Continua em velocidade rápida e ritmo constante, com as previsões meteorológicas, com os cálculos para a altura das ondas em várias zonas da costa, picos da tempestade, velocidade dos ventos nas diferentes regiões e ao longo das horas, zonas mais ameaçadas, características dos potenciais riscos, níveis de alerta, conselhos, transportes públicos para os abrigos… E por trás, barulhos ocasionais, como se a chuva também tivesse sido gravada, e carros de vez em quando, e o vento intenso a soprar, uma ambulância que passa e talvez até um helicóptero ao longe ou ondas a rebentar contra um paredão. A certa altura, a voz é quase imperceptível, depois melhora. E depois recomeça. Percebo então que se trata de uma gravação, e tudo se torna ainda mais estranho. Pergunto-me: haverá alguém a ouvir? Faz-me lembrar, de novo, os filmes, como se de uma daquelas gravações postas em repetição contínua, ad infinitum, se tratasse. Como se a gravação tivesse sido preparada como ferramenta para que os eventuais sobreviventes possam continuar a governar-se num cenário pós-apocalíptico onde, de ouvido colado a um rádio a pilhas, ela é tudo aquilo que conseguem sintonizar, no meio de uma chuva de estática.

E subitamente percebo que é precisamente disso que se trata. E que é por isso que a gravação está em repetição. Reparo agora que a transmissão de vídeo nem sequer carregou, mas já isso não me interessa; a gravação sonora não pára. Recomeça, repete partes, mas não pára. E é extensa, dura largos minutos. Ouço os mesmos alertas várias vezes e não deixo de pensar num grupo sujo, desirmanado e remediado, numa carrinha pick-up estacionada sob o telhado de zinco torcido de um antigo posto de combustíveis, fervendo a água numa fogueira e numa panela suja, enquanto o rádio em que procuram notícias lá vai transmitindo as mesmas informações, uma e outra vez. Tudo nos é dado por forma a que possamos assistir, sentar-nos e ver o espectáculo: as notícias reforçam que a Bolsa de Nova Iorque fechou pela primeira vez desde o 11 de Setembro, que o Metro da “cidade que nunca dorme” está parado, que as escolas estão fechadas, que as ruas estão desertas.

Tudo parece impossível, material de cinema, cenário, a tal ponto que fica apenas a pergunta: será que todos estão em casa por precaução, por segurança, ou estão todos em casa para que todos, sem excepção, possam assistir ao espectáculo em directo, nos ecrãs? O Mayor de Nova Iorque disse-o mesmo , falando pela rádio: «Esta noite a Broadway vai estar fechada, por isso pode ser uma boa oportunidade para permanecerem em casa, comerem uma sandes do frigorífico e ficarem a ver televisão.» Filme da vida que imita a ficção? Para que todos possam ser suas testemunhas, como se a tempestade pudesse chegar e passar sem que se desse por ela?

O rádio, a voz fantasmagórica que nos chega já sem o corpo de onde partiu — ou que se calhar nunca chegou a tê-lo, porque computacional, o que é mais ainda — é precisamente o ponto central na construção desta narrativa da catástrofe. Tal como na ficção, é preciso que este elemento já sem tempo, já sem referências, que se repete e perpetua, já sem corpo não cesse de transmitir. É ele a banda-sonora do cataclismo, é ele que aproxima o real da ficção e que pode assim servir-nos a catástrofe de bandeja. Todas as histórias precisam de um narrador. A Natureza monta o seu espectáculo; nós, pela nossa parte, cooperamos como podemos na composição do quadro.

Enquanto se ouve a gravação tem-se a certeza de que a catástrofe é real e não pode já deixar de acontecer, e se os Homens confiaram aos computadores a tarefa de informar e alertar os cidadãos, sabemos já que eles nada podem fazer, e que provavelmente já fugiram do local. A partir de agora, todos experimentarão a catástrofe pelo ecrã — já nem sequer pela janela pois os avisos dizem para correr as cortinas, que ela se pode partir –, sem lhe tocar, sem a sofrer, sem a sentir. Tudo remete para o ecrã.

Depois de tudo isto, podemos pensar, como certamente o faria Baudrillard: sem a gravação, sem as webcams apontadas às ruas, sem os alertas alarmados nos nossos jornais, chegaria a haver catástrofe? É que, em primeiro lugar, e além de tudo aquilo que a catástrofe possa vir a ser, ela vai acontecer da forma como vai acontecer porque todos se comportam em concordância.

 

Hugo Picado de Almeida

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Ficções, Pensamentos, Política

Sou ministeriável

Chove, e a cidade cheira-me a cão molhado.

Nos últimos dias, assim tem sido. Claro que esta ficção me desconsola, não tanto pelas circunstâncias olfactivas, mas sobretudo pelas consequências lógicas que dela decorrem. Imaginei, então, que, se a cidade é um cão, não nos restará senão ser pulgas, trincando e assestando os beiços sobre a pele do nosso fiel amigo. E tenho medo.

Tenho medo pois chego, por conseguinte, à desgostosa conclusão de que sou, eu próprio, ministeriável. Afinal, pareço dividir a vida entre aqueles que enterram o dente na carne dos outros e aqueles onde o dente é enfiado. E afinal, a economia como a temos hoje, bem resumida, não passa disso mesmo.

Talvez Gregor Samsa também tenha, uns dias antes daqueles que o tornaram famoso, cheirado esse cheiro de cão molhado nas ruas da sua cidade. E vejam bem o que lhe aconteceu. Como um dia escreveu o Manuel Jorge Marmelo, «Certa manhã, ao acordar dos seus húmidos sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, muito transpirado e transformado num insecto repelente e monstruoso: um ministro do XIX Governo Constitucional.»

 

Hugo Picado de Almeida

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Media, Pensamentos

Tiraram-me o fígado

Hoje, esqueci-me do telemóvel em casa, e, ao inconscientemente lançar a mão ao bolso, procurando-o mesmo sabendo que ele não estaria lá, pensei que havia de ser possível escrever-lhe uma espécie de fenomenologia da perda, como o fez Vivian Sobchack acerca da sua perna protética.

O telemóvel é hoje parte da nossa anatomia, e só os compêndios da especialidade que se manuseiam nas academias médicas não o sabem ainda. Como um senhor me disse um dia, durante uma entrevista que realizei no âmbito da minha tese, sentia-se doente sempre que se esquecia do telemóvel em casa. «Parecia que me tinham tirado o fígado.», dizia.

Sintomaticamente, Elizabeth Wright, logo no início de um seu ensaio sobre a experiência da sua própria prótese, diz:

«My prosthetic is a secret of my self. It hides, tucked beneath clothing, allowing me to pass as something that I am not, that I can never be. It is precious to me, it enables me, gives me mobility and an aesthetic that would cease if it was removed from me. Within my body schema, my prosthetic is as much a part of my body as my skin, blood, and organs. It is also an object of technology, a topological replacement of a missing body part.»

Necessariamente, o telemóvel é uma extensão do nosso corpo, da nossa voz, dos nossos olhos, e a sua falta não se sente senão como uma súbita incapacidade, uma redução no leque de funções do corpo. Lendo e relendo este parágrafo inicial de MY PROSTHETIC AND I: Identity Representation in Bodily Extension, o telemóvel parece-me encaixar tão bem como uma perna feita em fibra de carbono.

 

Hugo Picado de Almeida

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Crise, Pensamentos, Política

Ser livre

Dizia o Mário de Carvalho, no domingo, no Câmara Clara, que para governar é preciso ser-se um Homem livre. E depois acrescentava que os nossos governantes não são livres, pois têm negócios e, pior, «negociatas» que influenciam uma grande parte das suas medidas e decisões. Não são livres, mas reféns de bancos e grandes empresas, esses e essas para onde vão A.G. e D.G. — antes e depois de Governo, claro –, como se de um felicíssimo milagre se tratasse, como paralíticos subitamente elevados sobre andas.

Diz o Ricardo Araújo Pereira — numa das melhores frases sobre a situação que vivemos — que, «se isto é o resgate, eu preferia o sequestro». Percebemos, porém, que afinal se trata mesmo de um resgate, e os seus agentes assim lhe chamam sem qualquer vergonha. Há, efectivamente, gente a ser resgatada. Os felizes cativos no Governo, em grande parte da Assembleia, nos bancos… E nós, os 99%, servimos de moeda de troca, como o polícia que se oferece ao sequestrador para que se concretize a libertação dos reféns civis. No nosso guião sucede apenas que as posições se inverteram. Mas por que deveria isso espantar-nos? Já é assim com tanta coisa… E, bem olhada a história, sempre foi o povo quem representou a democracia em momentos conturbados. Isso da democracia representativa é só uma forma de esconder o facto de já não estarmos perante uma democracia, um mero eufemismo, a ilusão semântica, assim como os impostos deslizaram para o assalto mas não perderam o nome, assim como o Estado Social é uma imagem sem nada por trás, e também, enfim, como o dizia Baudrillard, como o direito de voto se transformou em dever.

Não, não somos, de todo, livres. Estamos, talvez, presos por arames, agarrados a imagens, amarrados a bandeiras que já não se suportam em mais do que na própria crença que têm da sua existência. Oportunamente, li na semana passada uma frase de Charles Bukowski, que dizia estar convencido de que nunca chegámos a abolir a escravatura, e que tratámos apenas de a alargar a todas as cores de pele.

 

Hugo Picado de Almeida

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Pensamentos

Fogachos #7

fogacho s.m. «pequena labareda; chama; (…) sensação de calor que vem à face em decorrência de fortes emoções ou de males físicos; aparecimento súbito e intenso de sentimentos violentos; arrebatamento, assomo; (…) luz súbita no espírito; manifestação momentânea de inteligência; iluminação.» É também o título de uma série de pequenos textos de Baudelaire.

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Crise, Pensamentos, Política

O Ataque, a Bomba, o Napalm

Não deixa de ser curioso, e não pode passar em claro, que seja precisamente quando, em Portugal, Seguro fala de uma “bomba atómica fiscal”, Bagão Félix refira o “napalm fiscal”, e que tantos deputados como jornais se divirtam com metáforas bélicas, como o “ataque” e a “pancada”, que a União Europeia seja agraciada com o Prémio Nobel da Paz.

Há, evidentemente, algo que está mal.

A resposta estará, certamente, também nos jornais, que desde ontem decidiram passar a referir-se — bem alinhados como um exército (e eis que também já a mim me converteram) — ao aumento de impostos como “sismo”, “tsunami” e “furacão”. Afinal, percebemos agora que tudo não passa de uma catástrofe natural, e conquanto seja grave, poderemos puxar os cantos da boca para cima e alegrarmo-nos, pois que os Homens então não têm culpa. É a economia, essa coisa tão natural, que é feita de ciclos como a vida, também muito naturalmente. Se a vida nasce e morre, por que não a economia, os mercados, e até o bom-senso e inteligência dos políticos? Com tanta naturalidade — um pouco como os carros de alta-cilindrada que, segundo parece, são medida para aferir a qualidade da democracia –, talvez o melhor seja mesmo transformar Portugal numa ervanária, e despachar o conjunto dos deputados em blísteres de 12 unidades, como cápsulas para a rouquidão e afonia.

Bem vistas as coisas, nunca ninguém levou os portugueses a falar tão bem e tão alto.

 

Hugo Picado de Almeida

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