Textos

Estática

Não será por acaso que chamamos chuva à estática na televisão sem sinal. Há entre elas parecenças de sósia.

Do lado de lá do vidro, a chuva converte-se em estética; visual e sonora, e nada mais. Estática na inércia incapaz de produzir efeitos do lado de cá da vidraça. Para lá do ecrã que é agora, também, a janela, distamos da chuva que cai tanto ou mais daquilo que rebenta, ribomba e peleja na outra janela que é, também e sempre, o ecrã. Assim se começa o isolamento e a apatia, moderno ascetismo pela astenia do corpo, do Homem: quando se o convence de que as paredes medem quilómetros e que a distância se aniquila apenas pelo controlo remoto em riste. Porque a loucura é sair lá para fora, de braços abertos, e deixar-se inundar pela chuva.
Hugo Picado de Almeida

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Austeridade laminar, consciência liminar

Como afirma o famoso fado, por morrer uma andorinha não acaba a Primavera. Talvez seja verdade, e o vaticínio deixa até subentendido que mais umas poucas de aves poderão também encontrar a morte sem, por isso, ameaçar a estação. A pergunta que importa fazer é óbvia: quantas andorinhas precisam de falecer para que nisso encontremos significado? Qual é o limiar da consciência? Cinco? Cinquenta? Cem? Quantas importam?

O problema do fado, o problema do problema, claro está, é o de se aplicar sobretudo aos Homens. As andorinhas nunca chegaram a estar na equação. Apontamos insultos ao governo, abanamos a cabeça, damos uns berros numa manifestação, mas talvez ainda pensemos habitar a Primavera, pois que nada fizemos para mudar a estação, verdadeiramente. Afinal, de quantos desempregados mais precisamos para nos convencermos de que algo está fundamentalmente mal? Quantos pobres são precisos para que com eles nos importemos? Quantas pessoas têm, enfim, de experimentar a fome para que isso ganhe significado? Quantos emigrantes são emigrantes suficientes para que isso nos preocupe?

Hugo Picado de Almeida

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