Do caderno, Textos

Alta-velocidade

A alta-velocidade suaviza tudo. Amacia a borracha áspera dos pneus sobre o alcatrão, torna maleável a fuselagem inerte do avião, e permite aos indivíduos a retirada mental, com justificação de ausência, da cordialidade da vida. A aceleração escusa as gentes ao trato e ao tacto, aniquila o bom-senso e esvazia-as de humanidade. «Um sujeito quieto é ainda um Homem.», pensou Jacques. «Um sujeito em movimento pode já não ser sujeito algum.»

Hugo Picado de Almeida

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Sem categoria, Textos

Manchas e sombras

[para o início de um texto]

Tudo começou com uma sombra – afirmação desde já audaciosa e merecedora de atenção, uma vez que, a bem da verdade, nada há que comece pela sombra. De facto, antes dela, há já pelo menos duas coisas: o Sol – ou outra fonte de luz no seu lugar – e o corpo onde ele embate para a provocar. Mas a sombra, já o adivinhamos, nem chega a ser o terceiro elemento, mas somente o quarto, pois ela depende ainda de uma superfície onde se projectar. Uma sombra não é uma mancha, mas pode parecer-se com ela. Se esteticamente ambas podem ser iguais, virtualmente indistinguíveis uma da outra, é na sua substância que diferem: na mancha, o que a causa está no exacto sítio onde ela se manifesta; na sombra não. Na mancha, há coincidência e partilha; na sombra, ausência e distância. Não será de estranhar, por isso, que para as gentes da Rue d’Orchampt tudo tenha parecido começar com uma sombra. Ou uma mancha.

Hugo Picado de Almeida

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Do caderno #1

Um homem talvez se pareça bastante com uma chama. A chama não tem história que lhe possa valer. Não é seu senão o instante em que se liberta, foge de uma brasa enrubescida e desaparece, fugaz. Sem passado. Sem futuro. A adolescência e a velhice numa centésima de segundo. Assim como o homem, apenas feito do seu presente, livre, no desprendimento da fornalha de constrangimentos estrangeiros que o poderiam consumir. Tapar-lhe a boca, calar-lhe o oxigénio e extinguir-lhe a esperança. O homem e a chama são apenas o momento da sua acção.

Hugo Picado de Almeida

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