Desporto

Memórias da F1

Este não é, como sabem, um blog sobre desporto. Mas a F1, para mim, é mais do que o desporto; são memórias da minha infância, desde os 4 anos, dos domingos de Fórmula 1, espécie de missa motorizada para um ateu como eu. São memórias de acordar de madrugada para ver o GP do Japão ou da Austrália, ou de acompanhar os europeus à hora de almoço, com o sol a varrer a casa. São memórias de jogos ao computador, de paixões, alegrias e derrotas partilhadas com os pilotos e ídolos, de ultrapassagens trepidantes e curvas apertadas, quase sentidas como se dentro dos velozes monolugares. Peço-vos, por isso, condescendência, e sigam-me por mais algumas linhas.

(Este artigo corresponde à primeira parte de um texto publicado por mim hoje, no blog Palavras ao Poste. Pode ser lido na íntegra aqui.)

Quando era pequeno, nunca quis ser polícia nem bombeiro. A primeira coisa de que me lembro de querer ser foi piloto de Fórmula 1. A minha avó materna, conselheira ajuizada, recomendou-me que escolhesse outra coisa, que aquilo lhe parecia perigoso. Assim fiz, e, umas semanas depois, disse-lhe o que tinha decidido: seria piloto de Rali. Pensei, de certeza muito erradamente, que assim a tranquilizaria, mas na verdade a F1 sempre me atraiu bastante mais, e sempre foi essa a paixão motorizada que em mim se cimentou.

Desde que me lembro de gostar de coisas que gosto de ver Fórmula 1, e quantas vezes não me levantei de madrugada para me sentar no chão da sala a ver o Grande Prémio de Melbourne ou o de Suzuka, na RTP ainda de símbolo antigo e com o inesquecível grafismo da Fórmula 1 nos anos 90: grandes números pretos sobre quadrados amarelos – quem não se lembra deles?

O meu primeiro ídolo (estávamos em 1993) foi o inglês Damon Hill, então a correr pela Williams. No ano em que o campeão saiu para a Arrows e que Schumacher trocou a Benetton, onde foi campeão em 1994 e 1995, pela Ferrari, eu troquei o inglês pelo alemão, e a Williams pela famosa scuderia italiana.

Tenho muitas memórias das transmissões dos Grandes Prémios. Graças às transmissões da RTP, o hino da Eurovisão é para mim sinónimo de F1. Lembro-me, muito tristemente, do fatídico GP de San Marino 1994, em Imola, certamente o fim-de-semana mais negro da história da modalidade, com as mortes do austríaco Roland Ratzenberger, no seu ano de estreia, e do tricampeão mundial, o inolvidável brasileiro Ayrton Senna. Lembro-me também do recordista GP do Mónaco 1996, onde só três carros terminaram a prova nas famosas ruas do Principado – estive lá algures em muito pequeno, e da cidade recordo quase unicamente a rua com as marcas da grelha de partida. Lembro-me ainda da brilhante corrida de Schumacher no agreste GP da Bélgica 1998, a fazer lembrar Senna no seu meio natural — a chuva –, no mítico circuito de Spa-Francorchamps, em que apenas oito dos 22 carros haveriam de terminar a prova, depois de um acidente com 13 pilotos na primeira curva, e do famoso acidente e da quase chegada a vias de facto entre Coulthard e o piloto principal da scuderia rossa. Lembro-me também, com a proximidade daquilo que parece ter acontecido apenas ontem, do Natal em que recebi um volante e pedais da Ferrari para me fazer piloto de F1 na segurança da casa e do ecrã. Lembro-me de jogar corridas com o número de voltas real, de estudar trajectórias óptimas e, claro, de destruir carros em número suficiente para levar a equipa à falência. A ficção é mais doce do que a realidade.

Desde 2007, quando a RTP deixou de transmitir a modalidade, esmoreceu o meu acompanhamento das provas, e foram poucas as corridas a que assisti desde então, acompanhando apenas os resultados e alguns dos seus excertos. Em 2013, porém, reacendo a paixão com o combustível ardendo nos motores.

Por isso, desimpeçam a pista, liguem os motores, e esperem pelo verde. A edição de 2013 da F1 está quase aí.

Se o tema vos interessa, convido-vos a visitar o meu artigo completo no Palavras ao Poste, onde faço uma antevisão da época 2013 para as equipas que ficaram na segunda metade da tabela na temporada transacta.

Hugo Picado de Almeida

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Textos

Palavras ao Poste

Como um blog não me dava ainda preocupações e responsabilidades sobejas, escrevo agora em dois.

O Palavras ao Poste é um blog colaborativo onde escrevo lado a lado com o André Cunha Oliveira, o Bruno Falcão Cardoso, o Bruno Gomes, o Diogo Taborda e o Joni Francisco, jornalistas, comentadores, teóricos da comunicação, malta com bom toque de bola e capaz dos melhores passes de letra. O futebol será tema em destaque, mas nunca abordado na fanfarronice fanática dos debates televisivos em fecho de jornada.

A quem o futebol possa não entusiasmar, também aqui convidamos a passar os olhos, prometendo que encontrará artigos sobre outros desportos, Sociedade, Política, Artes e Cultura; enfim, tudo aquilo para onde os nossos interesses nos apontem, e futuramente poderão haver mesmo outras surpresas no que à forma dos conteúdos diz respeito.

Cada um dos autores escreve em dia próprio. Eu sou às quintas. Ao domingo fechamos para balanço. Para tomar balanço para a semana seguinte, isto é.

Hugo Picado de Almeida

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(Des)Pedaços

tríptico_poema

Salvam-se os cacos das jarras
Para pavimentar as estradas.
Salvam-se os carros mastigados
Para uma exposição.
Salva-se o dinheiro das entradas,
Para pavimentar as estradas.
Salva-se tudo, tudo um pouco,
Só as jarras é que não.

 

(Des)Pedaços, Hugo Picado de Almeida

 
Nota: sobre as esculturas de John Chamberlain, ver o artigo de 3 de Março de 2012, Escritos de Nova Iorque #2.

Tríptico:
Hugo Picado de Almeida, Parc Güell, Barcelona, 2011
Moyan_Brenn, Monument Valley, Utah, EUA, 2011
ydhsy (photo), John Chamberlain, “Falfurrias” (Marshmallow), Various Works (1972-1983), Marfa, Texas, EUA

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