Textos

75 de Vodka

vodkaQuando os caçadores russos chegavam às cabanas que haviam de albergá-los durante a temporada de inverno, era seu costume fechar os olhos e atirar uma garrafa de vodka para o meio da neve. Diziam eles que, assim, quando viam a garrafa surgir novamente, ao cabo de alguns meses, sabiam que o inverno estava finalmente a chegar ao fim, e com ele o tempo de voltar a casa. Mais do que isso, este seria certamente ardil que os defendia de si próprios, garantindo-lhes uma garrafa para o fim da estação.

Uma destas noites, dei por mim a pensar que é bem possível que haja ainda, algures nos tapetes de neve da Sibéria, uma ou outra dessas garrafas, conservadas pelo álcool e pelo frio como cápsulas do tempo. De algum modo, parece-me que 75 centilitros de vodka podem ter tanto ou mais para contar do que um pedaço de papel numa mensagem, ou do que um barquito de vidro lá fechado dentro. Uma vez, num dos pontos mais altos de uma estância de ski andorrana, encontrei um desses frascos enterrados — vodka-pêssego –, e em boa hora decidi deixá-lo intocado. Tenho para mim que a história do dono, descendo as pistas depois de a beber, deve ser mesmo coisa do caraças, difícil de igualar em texto.

Hugo Picado de Almeida

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Textos

Silêncios

Quando há uma pausa numa conversa e o silêncio se instala entre todos, os russos dizem: «nasceu um polícia».

Este é, talvez, sentimento partilhado por todos os povos que experimentaram regimes totalitários; não importa a cor ou as coordenadas dos seus carcereiros. E isso não será desavisado, ainda que o silêncio também seja, as mais das vezes, muito esclarecedor. Ele diz sempre mais do que aquilo que se diz, porque o silêncio diz tudo o que não se pode dizer. Claro que é preciso considerar a possibilidade de haver também muito que não possa dizer-se. O perigo do silêncio, afinal, é de dizer o que quer e o que não quer.

O sentimento russo é curioso, mas não me parece que muito polícia seja capaz de descortinar todas as possibilidades que aqui se jogam. Todo o interrogatório procura uma coisa e uma coisa só: destruir o silêncio com que não sabe lidar.

Hugo Picado de Almeida

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Textos

Fragmento de uma peça inacabada

PERSONAGEM SEM NOME UM: Sabes que gostava, muito simplesmente, de poder dizer-te que te amo.
PERSONAGEM SEM NOME DOIS: Mas não podes.
PERSONAGEM SEM NOME UM: Talvez não me levasses a sério.
PERSONAGEM SEM NOME DOIS: Julgas-me indiferente?
PERSONAGEM SEM NOME UM: Julgo que não me amas. Ou tento convencer-me disso para que não tenha eu de confessar-me.
PERSONAGEM SEM NOME DOIS: Supõe que te amo.
PERSONAGEM SEM NOME UM: Suponho, espero… É essa remota possibilidade que me impede o sono à noite e que me encosta a espada ao pescoço e as costas à parede. E se tu me amares e eu nunca chegar a perguntar-to?
PERSONAGEM SEM NOME DOIS: E se tu mo perguntares e eu nunca chegar a amar-te? Do que tens mais medo?
PERSONAGEM SEM NOME UM: E por que não mo perguntas tu? Por que não mo dizes tu?
PERSONAGEM SEM NOME DOIS: Porque talvez paixão nenhuma resistisse a tamanha facilidade.
Hugo Picado de Almeida

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Livros

Das lutas que se perdem (2)

[em caso de dúvida, ler o artigo anterior]

Estava bom de ver que as coisas iam ficar feias para o lado dos cossacos. Nikolai Gogol certificou-se de que assim seria.

Os arcabuzeiros polacos feriram Chilo mortalmente no pescoço. Quatro lanças polacas mataram Guska. Uma bala atirou Bovdiug por terra. Uma azagaia, uma bala e um sabre acabaram simultaneamente com Balaban. Kukubenko trespassado no coração. Pissarenko decapitado. Metelitza espetado em lanças. Tarass Bulba, o nosso cossaco de estimação, personagem principal, acaba por matar um filho, que o traíra, e assiste à prisão e execução do outro, antes dele próprio acabar por se ver pregado a um carvalho morto e à força do fogo a ele se juntar.

Dificilmente as coisas poderiam ter corrido pior aos zaporogos, mas a sensação que fica, mesmo mortos quase todos, escapando-se meramente uma mão-cheia, após a batalha final — que disparate, como se as batalhas tivessem fim e o amor não, como dizia o Brel: D’aller pleurer comme les hommes pleurent / comme si l’amour durait l’eternité –, é que antes do último suspiro todos esses ásperos guerreiros tenham guardado fôlego para uma declaração de honra e de amor, para com os seus irmãos e para com a sua causa.

Claro está que não partilho dos seus ideais, da sua fé ou da sua causa, e menos ainda dos seus anseios belicistas, mas aqueles homens por detrás da cota de malha fascinam-me, na coragem e na honestidade que projectavam, na democracia muito própria, mas verdadeira — mais do que a nossa — que regia o seu zaporojié, e na dedicação e respeito que punham uns sobre os outros, mesmo que pudessem não os guardar para mais nada.

Hugo Picado de Almeida

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Textos

Das lutas que se perdem

No Tarass Bulba, de Gogol, página preenchidas por valorosos cossacos, por vezes mais ébrios, por vezes menos, sitiando cidades aos polacos, perseguindo a toque de sabre e explosão de mosquete turcos e tártaros, sente-se, porém, uma quase amorosa felicidade nessa vida simples, entre o acampamento e o campo de batalha, uma quase pueril satisfação nesses meses e anos desprendidos, em abnegação, no serenar dos desejos que animam os homens para lá da guerra. Gogol vai enumerando esses homens — Kukubenko, Borodati, Titarev, Golopitenko… –, os que se batem ferozmente, os que morrem, os que se batem ferozmente e que morrem…

No ponto onde pousei o livro, os temerários cossacos da Ucrânia fenderam as suas forças para salvarem os irmãos feitos reféns ora pelos polacos, na cidade cercada, ora pelos tártaros, que invadiram e saquearam o Sietch, acampamento fixo dos zaporogos ucranianos. 

As coisas não parecem promissoras para os valentes cossacos, mas talvez nos livros como na vida, seja como cantam os Anaquim: «Há lutas que se perdem mas precisam que alguém lute.»
Hugo Picado de Almeida

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Textos

Fuga e refúgio

O Coltrane está para ali a tocar a Stardust, a seu ritmo e sem que ninguém o possa apressar, nem mesmo a minha perna inquieta que martela o chão num nervosismo sem pátria. Toca ele como quem passeia, sereno, sem se esvair na pressa de tudo conquistar, maduro, paciente, sem a impulsividade de quem deseja pelo próprio prazer de desejar a que se entrega e do qual não quer escapar.

Vai tocando há já coisa de cinco minutos — o saxofone adormeceu, abandonando-se como quem sofre, segredando suspiros, enquanto o piano lhe vela o sono, adocicando-se em recordações imaginadas, memórias futuras, hipóteses — que talvez nunca concretizará — em melodiosa narrativa, e a bateria continua a fazer a contabilidade dos segundos obstinados, encurralados, como pensamentos angustiados, nos dias que vão morrendo uns atrás dos outros.

Não há nele procura nem fuga, apenas calma certeza, entretenimento deambulatório. Não se inquieta, como eu. Não se refugia em nada nem mesmo procura. Refúgio e procura? Fuga e refúgio? Haverá entre eles diferença? Estará ela no movimento e na sua ausência? Ou na permanência? Na duração? Ou no sítio onde se procura refúgio? Pode esse sítio ser a procura que se encontra? Talvez refugiar-se seja o fim da fuga. Mas não pode a fuga ser fim em si mesmo e não terminar nunca?

Hugo Picado de Almeida

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Textos

Vida e obra

Às vezes gostava que a cabeça me parasse. Que não emitisse mais do que um zunido surdo, impossível de alcançar, contínuo, que não deixasse espaço a mais nada.

Não distingo já o que desejo daquilo que simplesmente é e daquilo que efabulo sem que tenha, talvez, qualquer possibilidade de se dar. Na obra de um escritor, tudo é possível; na sua vida, não tanto assim. Eu, que vivo nessa vontade de me poder apelidar um, não sei já se as consigo ou se as quero distinguir, posicionar-me mais de um lado ou do outro, e, enfim, convencer-me de que uma tem mais constrangimentos do que a outra.
Hugo Picado de Almeida

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