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Vista de Oran, cidade palco d'A Peste, de Albert Camus (Foto in Financial Times).

Vista de Oran, cidade palco d’A Peste, de Albert Camus (Foto in Financial Times).

Não tenho desejos de eternidade; não estarei cá para daí recolher o mais miserável proveito. Como o Camus colocou na boca do doutor Bernard Rieux, no seu belíssimo e profundo A Peste, não estou tão interessado em ser santo como em ser homem, além de que, no futuro, não conheço um único alguém que anseie pela minha presença. E isso é apenas natural, nada digno de nota ou laivo de espanto ou desilusão; motivo algum para que se detenha o pensamento ou para que se encete qualquer esboço de acção. Escrever é coisa feita para poder durar, mas na verdade simultaneamente tão contextual como a beleza, tão unicamente presente como a presença palpável, descritível e delicadamente efémera de uma cadeira nesta sala, do quadro naquela parede, dos reflexos da luz que se projectam através do vidro durante não mais do que um instante. Quem o diz com a sua ausência são os milhares de livros violentamente queimados ou discretamente esquecidos, e mormente aqueles que simulam a existência com a presença nas prateleiras das livrarias.

Ser-me-á sempre mais fundamental ser lido por aquele grande amigo na mão e por aquela maravilhosa mulher no peito. Para aqueles que comigo forem presente. Talvez por isso não me aborreça se nunca a Academia do Nobel se decidir a agraciar-me. Sobreviver-me-ão sempre as páginas escritas, a mim e a todos, bem o sei, mas isso não lhes garante que lá adiante, no tempo ainda de ninguém, alguém as deseje mais do que hoje. Bem vistas as coisas, espero bem que uns quilómetros lá à frente haja textos bem mais necessários e relevantes do que os meus. O contrário desgostar-me-ia profundamente. Desiludir-me-ia.

Creio que o Sartre dizia algo como: “É até possível que haja um tempo mais belo do que este, mas este é nosso”.

Hugo Picado de Almeida

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Pour Mouscou par Orient Express

Fotograma do videoclip de Packshot, de La Femme.

Fotograma do videoclip de Packshot, de La Femme.

Encantam-me os imponderáveis que nos levam de um livro ao outro, de uma música à seguinte, e o ocasional poético diálogo que encetam, insuspeito, inadvertido, inusitado.

Como, por exemplo, poder ouvir a Packshot, dos franceses La Femme, que se inicia nesse hall de gare de uma estação sem nome, da mesma forma que uns dias depois se começa a ler o Austerlitz de W.G.Sebald, e que igualmente arranca na estação central de Antuérpia, olhando a enorme cúpula sobre a sala de espera e a magnífica estrutura de ferro e vidro que acolhe as longilíneas plataformas onde resfolegam os comboios. De alguma forma, são as linhas de comboio que conduzem uma história e outra, a da música e a do livro, passando de Antuérpia a Londres e ao País de Gales, a Paris e a Moscovo, em linhas aparentemente descosidas, de pontos falhados, perdidos e saltados pela agulha que cose os comboios e os seus destinos uns aos outros: ta route, étape après étape.

Há num e noutro — música e livro — o mesmo tom desesperado de uma amargura sem rosto, de uma violência sem remetente ou destinatário, de uma vingança sem porquê; o inatingível peso de um crime e uma sensação de culpa nos passos dados sobre a gravilha que segura os carris. Talvez o que partilhem seja afinal a náusea do mergulho no fumo dos comboios, da vertigem narrativa e dos túneis sucedendo-se, de um retour en vitesse, ultime direction que t’emmène au nord para um sítio onde as coisas possam até ter-se tornado o seu inverso: como no livro de Sebald, uma tentativa de reconstruir os passos e espaços de uma história colectiva tão incompreensível como a desse labiríntico Roland M, assassino e vítima, cantado na Packshot.

Ainda não cheguei a meio do Austerlitz — que no livro é um homem, mas como se tudo não bastasse, é também nome dessa famosa gare de comboios parisiense —, mas o que é óbvio desde início é essa atmosfera nocturna, ou dos dias de pouca saturação, resvés preto e branco, que também os La Femme usam no seu vídeo, enquanto cantam, por entre um obsessivo psicadelismo: Tu vois le jour dans le noir, Tu vois le jour dans le noir.

Hugo Picado de Almeida

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O título é o somenos deste texto

Martine's Legs, Henri Cartier-Bresson, 1967, Magnum Photos.

Martine’s Legs, Henri Cartier-Bresson, 1967, Magnum Photos.

Deve escrever-se sempre para uma mulher. Aliás, não sei se há outro motivo para escrever.

Talvez só por isso tenham os homens adiado por tanto tempo o acesso das mulheres ao alfabeto. Sabíamos bem ao que nos expúnhamos quando elas nos pudessem ler; sabíamos bem que só escrevíamos para elas e que as nossas palavras ganhariam, então e necessariamente, pesos diferentes, que surgiriam nuances semânticas a que atender, subtilezas e hipérboles a convocar em instantes precisos, calculados, e que a escrita passaria a ter de ser feita com o melhor de nós estampado na tipografia de cada momento. Mas tudo isto será evidentemente verificável. Talvez ao fazer a devida incisão na carne do texto para fins de análise, ao remexer-lhe as entranhas palavrosas com pinças e afiada curiosidade, mantendo-se a gramática e a sintaxe, arcobotantes do texto, fora do caminho à força dos retractores assépticos de inox, se apresentem óbvias as razões feminis que fazem bater o músculo literário. Talvez mergulhando bem fundo os fórceps no negro profundo do texto se possa excisar à ortografia a semântica para nela diagnosticar então, a olho e nu e peito igual, o remetente de lábios pintados bordado no tecido celular.

A leitura é impossível com a mente ocupada. As narrativas dos outros tornam-se mudas quando é a nossa que se atrapalha, tropeça, cai, levanta-se e corre trôpega, os pés procurando agarrar o equilíbrio escapando, vertiginoso, uns passos adiante. Não há nada como o pensar demais; apenas na exacta medida necessária para que a mente serene ou a situação se resolva, nos casos em que a ambas não assista a sinonímia. Mas a leitura é impossível com uma mulher em mente. Com uma mulher em mente, resta escrever.

Aliás, não sei se há outro motivo para escrever.

Hugo Picado de Almeida

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É preciso odiar os bons escritores quando morrem

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As pessoas estão erradas. É preciso odiar os bons escritores quando morrem, e não o contrário. Quero dizer: ao invés de amá-los mais, de louvá-los mais, é preciso odiar mais os bons escritores após a morte. Os maus escritores, vivos ou mortos, tanto se nos deve dar. Mas aos bons deve impedir-se que morram — e puni-los em anuência, se a tal for necessário chegar-se –, no acto egoísta de nos apartarem das suas palavras.

Um destes dias, terminando de ler o inacabado Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas compreendi ser preciso odiar o Saramago. Não por nada, que ele não merece ser odiado, senão por não ter terminado a história que tão bem gizou, essa a que perante os nossos olhos felinos começou a deslaçar o novelo, justapondo as palavras umas às outras com aquela precisão afinal tão óbvia e natural, tão insólita e absolutamente precisa, discretamente surrealista. De algum modo, incomoda-me poder acabar de ler algo que ele não pôde acabar de escrever.

Porque fica assim rompido o contrato. A obra que devia sobreviver ao escritor pode afinal morrer com ele e não chegar nunca, portanto, a fazer-se do leitor de quem é por direito. Há dias escrevi sobre as palavras que os escritores não dizem, e que são sempre mais do que as restantes. Fica a ideia — e a certeza — de que o Saramago as levou consigo, e que quase todas estavam ainda por dizer. Pior: a sua publicação inacabada, póstuma, não alcança nada senão em tornar manifesto o corte, agressiva a interrupção, vazio o gosto na boca. Abre-se o livro, chega-se-lhe ao fim num trago, e torna-se a fechá-lo com a sensação nua, desertificante, de se ter cometido um crime; de não se lhe ter direito.

Hugo Picado de Almeida

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