Cultura, Pensamentos

As cidades são mulheres

Sempre admirei o facto de as grandes cidades terem todas nome de mulher: Lisboa, Nova Iorque, Paris, Barcelona, Praga, Roma, Veneza… E não tenho a certeza de estar pronto para acreditar que isso se deva ao simples facto de, em português, cidade ser um substantivo feminino, mas pode bem ser por isso. Até porque, se o termo cidade é feminino, muitos dos seus nomes não o são: Berlim, Londres, Tóquio, Istambul, e que dizer das cidades russas nas margens do Volga, cujo nome é masculino ou feminino dependendo da margem onde se situam?

Seja como for, nunca imaginei uma cidade como um homem — culpa talvez da literatura? –, nem nunca vi nenhuma descrita como tal. Talvez porque, na nossa cultura, o símbolo da beleza sejam as mulheres e não os homens; talvez porque, na nossa cultura, elas é que são misteriosas e não eles, por isso são delas as ruas a descobrir, e enfim, talvez sobretudo por um certo domínio, justificado historicamente, ainda que nem por isso menos criticável na discriminação que encena, dos homens na cultura ao longo dos séculos. Entre os grandes escritores ocidentais, poucas são as mulheres que consideramos, e elas só aparecem em maior número já na segunda metade do século XX.

Em todo o caso, os escritores não têm disso culpa, e é uma bela homenagem que se lhes faz, homenagem pela qual eles são grandemente responsáveis, essa de considerar as mais belas cidades do mundo como mulheres.

 

Hugo Picado de Almeida

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Pensamentos

Fogachos #4

fogacho s.m. «pequena labareda; chama; (…) sensação de calor que vem à face em decorrência de fortes emoções ou de males físicos; aparecimento súbito e intenso de sentimentos violentos; arrebatamento, assomo; (…) luz súbita no espírito; manifestação momentânea de inteligência; iluminação.» É também o título de uma série de pequenos textos de Baudelaire.

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Arte, Literatura, Livros, Pessoas

Hemingway em Paris

Paris é uma Festa, livro autobiográfico de Ernest Hemingway, é um dos melhores e mais interessantes volumes que já li. Decidi-o. Decidi-o arriscadamente, porque me lembro de o ter decidido quando ia ainda pela página 32, mas a cada nova folha virada me sinto ganhar razão.

O trunfo do livro é ser autobiográfico, em vez de autobiografia chata, género mais comum. É que o livro não é um curriculum vitae posto em prosa, mas sim, como o promete o subtítulo que foi ocultado da capa da edição da Livros do Brasil mas que se encontra dentro do livro, um conjunto de «impressões da vida do autor em Paris, por alturas da segunda década do século XX». É simplesmente isso que o livro é, e é soberbo. Narrado por um mestre como Hemingway, ele próprio personagem principal, o livro consome-se como um romance, ou mais do que isso, por se sabê-lo real.

Este é um livro essencial para quem gostar de ler e/ou de escrever, e tem um bónus para os amantes de Paris, como eu. O livro não testemunha apenas os conhecimentos de Hemingway e os acontecimentos da sua vida, mas também nos leva a passear por tantas ruas conhecidas de Paris, pelos seus bistrots, pelas suas lojas… E como se tudo isso não fosse já recompensa suficiente para o leitor que se dispôs a abrir o livro, há ainda diversas passagens onde Hemingway fala da vida e da Arte, sobretudo da literatura, com a famosa artista e crítica Gertrude Stein, que debateu tanto e tanto aconselhou muitos dos grandes escritores e pintores que hoje idolatramos, Sylvia Beach, a dona da famosa livraria parisiense Shakespeare & Company (a original, não a que hoje existe), Ezra Pound, Scott Fitzgerald, entre outros. O livro é, sobretudo, um percurso pela vida de um Hemingway na casa dos 20, a procurar afirmar-se como escritor na cidade para onde afluíam todos os artistas do início do século XX.

Com isto tudo, fica na boca a sensação de que as melhores histórias são mesmo as verídicas, e a dolorosa sensação de ver, página a página, o livro aproximar-se do fim.

 

Hugo Picado de Almeida

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Arte, Cultura, Política

«Artocracia»

«Artocratie», o primeiro de seis projectos da série Inside Out, de JR

Na Tunísia, após a queda de Ben Ali, seis fotógrafos tunisinos chamaram a si a árdua tarefa de devolver o país ao seu povo. Fizeram-no colando nas ruas de várias cidades fotografias de grandes dimensões de cidadãos anónimos expressando aquilo que cada um desejasse. O gesto ganha relevo quando se pensa que, durante duas décadas, as únicas imagens cuja afixação era permitida nas ruas da Tunísia eram as que representavam a figura do seu líder, sempre nas poses cavaleirescas e estereotipadas da propaganda. Mas muitas fotografias da mesma pessoa expostas na rua não são Arte.

A Arte são as pessoas dentro dela. É por isso que é preciso voltar às Artes. Tirar o excesso político de cena e dar voz ao escasso artístico.
Os momentos de libertação de um povo são momentos propícios à explosão das mais diversas expressões artísticas — pense-se em Berlim depois do muro –, e isso deveria dizer algo aos que hoje querem deixar as Artes à beira do prato.

 

Hugo Picado de Almeida

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Cultura, Literatura, Música

Os GNR contra o Acordo Ortográfico: desde 1992

Há muito que gosto das músicas dos GNR, da irreverência do Rui Reininho, das letras labirínticas, surrealistas, plenas de intertextualidade. Havia, porém, uma música cuja maioria das palavras eu não conseguia destrinçar, e isso incomodava-me particularmente por ser uma das que me entrava melhor no ouvido.

Resolvi, então, procurar a letra, e depressa percebi sobre o que era, afinal, a música: uma crítica ao Acordo Ortográfico. Se o Acordo está agora em vigor, a decisão da sua criação foi já tomada em 1990 — daí a sua designação por «AO1990» –, e a música pertence a um álbum lançado em Abril de 1992, Rock in Rio Douro.

De facto, a música começa de forma esclarecida: «Ação, ator, ato», e prossegue depois com uma série de palavras ou referências pouco claras, onde vagamente se distinguem palavras que conhecíamos — muito como faz o Acordo — e não se coíbe de usar diversas palavras que o acordo veio transformar e, assim, dificultar o acesso ao sentido da frase, como acontece no verso «Que era súdito direto de fato», onde se deveria lersúbdito directo, de facto.

Mais ou menos a meio do texto, a letra atinge de forma claríssima aquilo que quer dizer, quando se sabe qual o seu significado:

«É um acordo ou é um buraco

Quem o quer, esse muro concreto
É político mas analfabeto

A corda bamba da cultura …»

A música tem ainda tempo para dar voz às incertezas sobre os motivos por detrás do Acordo, suspeitas geralmente unificadas na ideia de que resulta de pressões por parte dos editores brasileiros para dominarem o mercado editorial dos demais países da CPLP, onde havia ainda alguma resistência por parte dos leitores do chamado português europeu. A letra termina assim, tão clara quanto começou:

«O Petróleo não é tudo, Jr.!
Anónima acunpuntura»

Olhando agora para trás, alegra-me maravilhosamente descobrir que a letra dos GNR onde quase nem entendia as palavras era a música em que mais me revia, e especialmente a letra onde se pretende demonstrar que o Acordo rouba sentido à língua, e que este a pode tornar mesmo incompreensível.

 

Hugo Picado de Almeida

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Ficções

Fogachos #3

fogacho s.m. «pequena labareda; chama; (…) sensação de calor que vem à face em decorrência de fortes emoções ou de males físicos; aparecimento súbito e intenso de sentimentos violentos; arrebatamento, assomo; (…) luz súbita no espírito; manifestação momentânea de inteligência; iluminação.» É também o título de uma série de pequenos textos de Baudelaire.

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