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O pudor nas palavras

Há palavras proibidas. Palavras que não é de bom tom utilizar. Que não ficam bem. E nem se trata de dirigi-las como um insulto; é a sua mera menção que causa prejuízo. É o seu simples uso que é insultuoso. A democracia e o século XXI, que aos seus próprios olhos são a vanguarda de tudo o que é bom, porta-estandartes da liberdade, vão a pouco e pouco pensando que talvez estivessem melhor num sistema medieval, ou dentro de um totalitarismo matemático. A linguagem binária dos computadores – arquétipos da vida hoje em dia – quer agora esterilizar a linguagem das letras.

Já é assim no Governo e na economia; porque não no resto?

Hoje, nivelamo-nos por baixo. Há coisas que não se podem dizer nem pôr em causa. Há coisas que ou se aceita ou se deve ignorar. São os dogmas a ressurgir: é a época dos valores absolutos: a austeridade é uma inevitabilidade, o desemprego também; a abstenção endógena fatalidade.  Se não concordamos, também já não nos devemos insurgir, ou acaso não veremos que o que é preciso é unidade? Acaso seremos tão irresponsáveis que não vemos que urge concordar e acenar com a cabecinha, que, como todos sabem, juntos somos mais? É altura para nos unirmos em torno do barco que afunda! Pede-nos o barco, claro… E evitar o diálogo, evitar questionar, evitar certas palavras como se as manchasse a falta de educação?

No fim de tudo isto, fica-se com a sensação de que o dicionário talvez estivesse melhor com um terço das palavras apenas.

Hoje, já ninguém admitiria ao José Mário Branco que cantasse o seu tema FMI completo no seu reflectivo protesto acalorado. Felizmente que ele o fez já há tempo. E parece tão oportuno recordá-lo agora (que não se deixem distrair pelo registo que ele escolheu empregar):

«Que se foda o futuro, que se foda o progresso! Mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento em que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né, filho? Bardamerda o FMI! O FMI é só um pretexto vosso, seus cabrões! O FMI não existe! O FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma. O FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio. Rua! Desandem daqui para fora!  A culpa é vossa! A culpa é vossa! A culpa é vossa!…»

 

Hugo Picado de Almeida

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2 thoughts on “O pudor nas palavras

  1. darkouterheaven diz:

    Com a tua permissao, escrevo o meu comentário em espanhol, enquanto nao acho poder encontrar em português as palavras precisas. Porra, eu tenho de estudar portuguếs antes que eu esqueça tudo!

    Hay palabras que no se dicen porque no se desea que existan. Si no se habla de los homosexuales, no existen. Sucede igual con la muerte. Para los poderosos, es fácil cargar las culpas sobre el eslabón más débil de la cadena, e igual que a base de vetar una palabra la hacen desaparecer, repitiendo una vez y otra una mentira la intentan hacer realidad. Y la disfrazan con palabras como crisis, sacrificio, confianza. Pero la culpa es suya.

  2. Estás à vontade, Eduardo; o espanhol está perfeito e é bem-vindo.
    Concordo com tudo o que escreveste. Penso que é muito disso que se trata. Proíbem certas palavras e tentam convencer-nos a fazer o mesmo, para as tornarem inócuas ou pior: mal-vistas. Ao mesmo tempo, forçam a repetição de outras, para as tornarem visíveis e repetidas e, por isso, como disseste, realidade.
    Obrigado pelo teu comentário.

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