Livros

O cheiro dos livros

Há bem pouco tempo, as notícias deram conta de que uma equipa de cientistas tinha desvendado a origem do cheiro dos livros. Fundamentaram, então, aquilo que já toda a gente tinha mais ou menos inferido, isto é, que o cheiro resultava da exposição do papel e das tintas ao tempo, ao sol, à humidade, tudo contribuindo para a degradação dos seus materiais, muitas vezes com uma preciosa ajuda de substâncias ácidas utilizadas no tratamento do papel ou na composição das tintas. Do nada, nada se faz.

Em nome da verdade há que dizer, porém, que o estudo deixa uma importante nota: os livros facilmente absorvem cheiros fortes a que possam estar expostos durante longos períodos: o tabaco, por exemplo, ou o café.

Parece-me, por tudo isso, abusivo falar de um «o cheiro» dos livros. Falar no cheiro dos livros é como falar no cheiro das pessoas ou no cheiro das casas; não há um, mas muitos. Os livros cheiram às pessoas que os lêem, às casas onde são guardados e aos que nelas vivem ou ao que nelas se passa.

Há algumas semanas comprei na Feira da Ladra o primeiro volume de Illusions Perdues, de Balzac, numa edição francesa dos anos 30. Não notei logo quando o comprei, mas ao fim de umas horas na mochila, e agora ainda na estante, o livro liberta um odor quase violento a antigo perfume de mulher, certamente a senhora a quem pertence a assinatura desenhada e ilegível a esferográfica verde numa das primeiras páginas.  Pego no livro e de imediato me vem à mente o cheiro que se espera sentir num boudoir antigo, desses que já só há nos filmes, cheio de cortinas grossas e carpetes e sedas e veludos e lençóis e tudo.

 

Hugo Picado de Almeida

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Pensamentos, Pessoas

Perspectivas

Gosto, por vezes, de imaginar o que sucederia se dada personagem histórica — digamos, o Marquês de Pombal — aparecesse subitamente no nosso espaço-tempo — digamos, perdido no Marquês de Pombal.

Penso, com o orgulho arrogante de quem pertence ao futuro, que ficariam positivamente abismados, espantados com a evolução do mundo que lhes sucedeu, maravilhados perante os progressos tecnológicos e perante as máquinas que hoje coabitam connosco. Imagino os diálogos, as explicações que seria preciso dar-lhes, as histórias que importaria contar, os sítios a visitar, as experiências por que fazê-los passar.

Imagino tudo isso, e depois percebo que provavelmente nada de bom se retiraria da situação. Em primeiro lugar, o português mudou tanto que talvez a conversação já não pudesse fazer-se com grande sentido; muitas seriam as palavras desconhecidas para eles e para nós, e os modos estranhos. E o mundo, talvez longe de maravilhar, poderia desencadear neles uma qualquer neurose ou psicose — aquilo que a psicologia considerar mais adequado –, capazes de desembocar num delirante ataque cardíaco que tornasse trágico o já dramático regresso de uma tal personagem aos nossos dias, algo capaz de animar os escaparates das papelarias e da internet durante uma boa quantidade de dias.

Isto lembra-me o que escreveu um dia o ilustrador Robert J. Day, «It isn’t that I don’t like current events. There have been just so many of them lately.»

 

Hugo Picado de Almeida

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Literatura, Pensamentos

Rosa choque

Hilary Mantel, escritora e crítica britânica, dizia que, se bloqueado, um escritor devia afastar-se da secretária, dar um passeio, tomar um duche, cozinhar, ouvir música… De algum modo, é o que defendo: para escrever (ou criar qualquer outra coisa) bem é preciso ler muito, ver muito, passear muito, conhecer pessoas, falar com elas…

Com algumas dificuldades em fazer avançar os meus textos nos últimos dias, decidi então sair de casa — que apresenta por vezes demasiadas distracções, sobretudo, e não por acaso, nos momentos em que o trabalho não avança como esperado. O punctum, como diria Barthes, se o retrato da situação que aqui farei fosse realmente uma fotografia, estava noutro sítio: enquanto seguia no metro, sentada à esquerda do meu olhar, uma senhora larga segurava um cãozinho, e era para o cãozinho que eu não conseguia parar de olhar. Não era particularmente bonito, mas acontece que tinha vestido uma espécie de maillot rosa, um laço de seda roxo atado à cintura e, como se a imagem não fosse ainda grotesca o bastante, um colar de pérolas com um pendente cujo material e forma não consegui perceber muito bem.

Quando cheguei ao meu destino, a escrita correu particularmente bem, como há dias não sucedia, e o dia veio a revelar-se particularmente profícuo. Obrigado, Hilary Mantel. Tinhas razão. Todos precisamos de encontrar novas coisas, e talvez não haja nada mais novo, e chocante, do que um cão de maillot cor-de-rosa e colar de pérolas.

 

Hugo Picado de Almeida

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Pensamentos, Pessoas

Momentos de sabedoria fugaz

Uma coisa que os passeios de bicicleta têm de curioso é que só se apanham pedaços de conversas, quando se passa por outras pessoas. Um exercício interessante que gosto de fazer, e que faço já quase involuntariamente, é tentar pensar o que pode ter originado tal diálogo, o que significa, o que se poderá seguir-lhe, etc.

Ontem, por exemplo, passei por uma senhora  que seguia a pé a dizer à amiga: «A gaja é uma badalhoca. Só não lhe fui às trombas porque…» O instinto, ao ouvir alguém falar assim, diz-me que pedale mais depressa — não vá o indivíduo em questão decidir vir-me também “às trombas” (aqui, notavelmente, diferem os elefantes das pessoas, pois enquanto os primeiros só têm uma, as gentes parecem admitir duas). Porém, pensando melhor sobre o assunto, pessoas assim acabam por fazer-me sorrir, porque são essas pessoas que dão vida ao humor. Elas superam as caricaturas de que por vezes são vítimas, e isso é tarefa semanticamente muito complicada, como o dicionário o poderá atestar. Assim, mais do que personagens-tipo, estas são pessoas-tipo, o que não é para qualquer um.

Acabo a lembrar-me novamente de Baudrillard, que dizia que a realidade nos surpreende sempre, que a realidade resiste sempre mais do que a ficção e que vai sempre mais longe do que esta.

 

Hugo Picado de Almeida

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Música

Ovos mexidos

Yesterday, dos Beatles. Todos conseguem ouvir os versos dentro da cabeça: Oh, I believe in yesterday.

Consta, porém, que a letra que todos sabemos de cor não é a letra original da música; essa, de facto, só viria a ser escrita mais tarde, aquando duma viagem de Paul McCartney ao Algarve — o país do fado pôs o músico inglês a cantar sobre a saudade.

O que interessa, na verdade, é essa primeira letra que McCartney escreveu. A música intitulava-se originalmente Scrambled Eggs (isto é, Ovos Mexidos), e no lugar do famoso verso Yesterday, all my troubles seemed so far away, cantava-se: Scrabmled Eggs, Oh, Baby, How I love your legs.

Habitualmente vemos na poesia dos Beatles uma profunda exploração dos sentimentos, sobretudo o amor, e por isso uma exploração do humano, e foi sem dúvida isso que partiu tantos corações no caminho. Muito sintomático disso parece-me, então, esta letra original de Yesterday, momento de rara beleza, aliás, porque nos permite ver os homens por detrás da música, os homens em evolução. Sejamos francos: haverá algo mais humano do que um homem a cantar sobre ovos mexidos e pernas femininas? Talvez não. Talvez não…

 

Hugo Picado de Almeida

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Pensamentos, Pessoas

365

De acordo com o meu perfil no Facebook tenho 365 amigos. Não pode ser; são demais.

Dá um dia por amigo, ou um amigo por dia, e não estou convencido de que isso seja amizade.

Enquanto há aqueles com que estou todos ou quase todos os dias, aqueles que são muito mais do que amigos, ou aqueles com quem falo regularmente, há outros que não passam de conhecidos, ou de alguém com quem me cruzei um dia.

Já dizia o Almada Negreiros: Entrei no Facebook. Pus-me a contar os amigos que tenho e os dias que tenho num ano. Não chegam, não duro nem para metade da lista. Deve haver certamente outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estarei perdido.»

 

Hugo Picado de Almeida

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