Literatura, Livros, Textos

Livros ao kilo

img_20170128_212822_885O passeio de sábado pelo bairro revelou a surpresa de uma feira de livros usados no Centro Cultural que fica paredes-meias com a igreja e o campo de futebol. Lá dentro, o grande salão e o seu palco eram somente mesas e mesas escondidas por um invejável e talvez invencível império de livros. Postos de lado os corredores em alemão e em luxemburguês, refugiei-me durante uma boa hora no canto dos autores clássicos franceses. A venda era ao kilo e barata. Não fosse o caso de um dia ter de os fazer atravessar países, não teria trazido apenas estes. Bom… Talvez lá volte amanhã.
Hugo Picado de Almeida

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Livros

Das lutas que se perdem (2)

[em caso de dúvida, ler o artigo anterior]

Estava bom de ver que as coisas iam ficar feias para o lado dos cossacos. Nikolai Gogol certificou-se de que assim seria.

Os arcabuzeiros polacos feriram Chilo mortalmente no pescoço. Quatro lanças polacas mataram Guska. Uma bala atirou Bovdiug por terra. Uma azagaia, uma bala e um sabre acabaram simultaneamente com Balaban. Kukubenko trespassado no coração. Pissarenko decapitado. Metelitza espetado em lanças. Tarass Bulba, o nosso cossaco de estimação, personagem principal, acaba por matar um filho, que o traíra, e assiste à prisão e execução do outro, antes dele próprio acabar por se ver pregado a um carvalho morto e à força do fogo a ele se juntar.

Dificilmente as coisas poderiam ter corrido pior aos zaporogos, mas a sensação que fica, mesmo mortos quase todos, escapando-se meramente uma mão-cheia, após a batalha final — que disparate, como se as batalhas tivessem fim e o amor não, como dizia o Brel: D’aller pleurer comme les hommes pleurent / comme si l’amour durait l’eternité –, é que antes do último suspiro todos esses ásperos guerreiros tenham guardado fôlego para uma declaração de honra e de amor, para com os seus irmãos e para com a sua causa.

Claro está que não partilho dos seus ideais, da sua fé ou da sua causa, e menos ainda dos seus anseios belicistas, mas aqueles homens por detrás da cota de malha fascinam-me, na coragem e na honestidade que projectavam, na democracia muito própria, mas verdadeira — mais do que a nossa — que regia o seu zaporojié, e na dedicação e respeito que punham uns sobre os outros, mesmo que pudessem não os guardar para mais nada.

Hugo Picado de Almeida

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Livros

Marcadores de páginas, contágio

Sei bem que tenho manias.

Ontem, por exemplo, já cansado de decorar o número da página de um dos livros que ando a ler, resolvi ir até à gaveta para me socorrer de um marcador. O primeiro candidato que me veio à mão, soerguendo-se do molho onde os tenho, foi um alusivo a um livro do Paulo Coelho: Monte Oito, ou sete ou seis, já não sei bem nem me dignei a ir procurar. Larguei-o de imediato, como se receasse a peste, subindo-me pelo braço como há séculos trepou pela perna da Itália. Um marcador a dizer Paulo Coelho num livro do Sartre? Um marcador alusivo a um escritor de misticismos e alquimias e espiritualidades no L’Existentialisme est un Humanisme? Seria preciso eu estar doente, demente, para fazer tal afronta ao Sartre, ensanduichando-lhe entre as páginas, apertado contra elas, o incenso e as purpurinas do Paulo Coelho.

Fui, portanto, em busca de outro marcador. Afinal, se os marcadores marcam as páginas, é preciso cuidado com aquilo a que as expomos. Sei bem que isto talvez não seja nada, mas a mim faz-me diferença.

 

Hugo Picado de Almeida

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Livros, Política

O espanto visto daqui

«É preciso deixar a facilidade para os “fáceis”. Salvo raras excepções, o que os políticos não nos perdoam é nós podermos fazer o que eles fazem, mas eles não serem capazes de fazer o que a gente faz. No fundo, odeiam-nos. (…) Os piores são até os que se armam em cultos. No antigamente, os anticultos cortavam-nos o pio. Agora, os pseudocultos apaparicam-nos para ver se nos castram. (…) O que todos querem é que a malta que borra o papel ou que faz mamarrachos, sobretudo a malta que pensa, não cumpra uma das suas grandes obrigações: a de lhes dizer, a cada momento, que eles são apenas o sopeirame do povo, a criadagem de todo o maralhal, e que se a gente os elege e se a gente lhes paga (que remédio!) não é para eles andarem por aí a dar-se ares, a enriquecerem desavergonhadamente, a portarem-se como novos-ricos, a pensarem que sabem arrotar em várias línguas como o tal Ramelas…», Um Amor Feliz, David Mourão-Ferreira, 1986.

Espantamo-nos sempre que encontramos num escritor mais ou menos antigo — um Eça ou, mais recentemente, um Mourão-Ferreira — a crítica política perfeitamente adequada à realidade contemporânea. Deveríamos, isso sim, admirarmo-nos com o facto de, anos e anos volvidos, a política e os políticos não terem mudado nada, e mais ainda com o consentimento que nós lhes temos dado.

 

Hugo Picado de Almeida

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Cultura, Literatura, Livros

Os donos dos livros

No meu quarto tenho mais de 500 livros, cujos autores, editoras, edição e respectivo ano, número de páginas e idioma reúno numa lista que actualizo de cada vez que um novo volume entra pela porta.

Não sou tão dono de nada quanto sou dono de livros.

E sei que, ainda que eles sejam só 500 e eu tenha apenas 24 anos, é grande a probabilidade de não os vir a ler a todos. Sei bem que comprarei mais, muitos mais, e que alguns desses passarão à frente de alguns já inquilinos das minhas estantes. E sei também que alguns desses que comprarei acabarão por permanecer sossegados nas prateleiras a ver outros, mais antigos, serem lidos no seu lugar.

Nunca desejei ser rico como aqueles que julgam que a riqueza em si é um valor a perseguir. Gostava de viver fazendo apenas aquilo de que gosto e com certo desafogo, é claro, mas talvez gostasse sobretudo de ter dinheiro para poder andar por aí, tranquilamente, lendo todos os livros que me seguram as estantes e os que ainda as hão-de segurar.

Gostava, sei-o bem, de me dedicar a eles.

 

Hugo Picado de Almeida

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Literatura, Livros, Pensamentos, Sem categoria

4 de Janeiro

São alguns os escritores que admiro, e Albert Camus é certamente um deles.

Assinala-se hoje o aniversário da morte de Camus. Hoje mesmo, dia 4 de Janeiro, o dia em que eu havia de nascer, 39 anos mais tarde, precisamente 1448 kms, em linha recta, a sudoeste de Villeblevin, vila onde nesse 4 de Janeiro de 1960 Camus viria a morrer, dentro do Facel Vega conduzido pelo seu editor, Michel Gallimard. Também como Camus, também eu publiquei o meu primeiro livro aos 22 anos. 

E a estas coincidências me agarro, pois que elas me permitem fazer engrossar os ombros e procurar legitimidade para ir à estante e trocar a ordem aos livros, fingindo que o «A» de Almeida e o «C» de Camus são consecutivos, e que o meu Cortejo pode seguir-se ao Estrangeiro dele, por exemplo. Posso assim acreditar que um dia terei o talento para lhe morder os calcanhares. Convém ter modelos que nos puxem os olhos para cima.

Dispenso, porém, imitá-lo nesse fatídico abraço inesperado e não consentido a uma árvore de Villeblevin. Espero que nestas coisas se possa escolher.

 

Hugo Picado de Almeida

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Crise, Livros, Política

A marrã comeu a troika

N’ A Cidade do Sossego, de Nikolai Gógol, narra-se a tragicómica altercação entre dois Ivans (Nikiforovitch e Ivanovitch), vizinhos, outrora amigos, desses de unha com carne, tornados unha contra carne. A contenda, que se inicia com uma injúria decorrente da recusa da venda de uma espingarda, vai escalando por entre uma capoeira para patos, montada e destruída, pelas agressões entre vedações aos cães e petizes alheios, sevícias aos criados de outrem, até que os dois vizinhos recorrem ao tribunal, trocando queixas e pedidos de prisão, e se votam ao esquecimento, evitando-se sempre que possível e, na sua impossibilidade, comportando-se com o maior desprezo perante o outro.

No meio de tudo isto, porém, não devemos esquecer a grande porca de Ivan Ivanovitch, essa marrã castanha que, inicialmente recusada na disputa pela espingarda, iria acabar por irromper pela sala de audiências do Tribunal de Primeira Instância de Mirgorod para, à força de beiços, furtar a queixa do fidalgo Nikiforovitch. Ainda não se lembrou, o Passos, de mandar um dos seus capangas levar pelas bocas mordazes e, não menos vezes, sebosas q.b., tão capazes que já se provaram noutras alturas de resgatar às mais sombrias profundezas os argumentos mais abrolhosos e ababelados, as troikas e os ratings, os mercados, as agências financeiras, a Merkel, o BCE, a TSU e, enfim, a crise ela própria, e de os fazer desaparecer com a efectividade narrativa de Gógol; n’A Cidade do Sossego, nunca mais se ouve falar da tal queixa escrita, e curiosamente, nem da oportuna marrã castanha que nenhum dos funcionários do tribunal se mostrou capaz de deter.

Em Portugal, as gentes querem também ver pelas costas tudo isso; não apenas as crise e a troika, mas também o Governo e as suas marrãs.

 

Hugo Picado de Almeida

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