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Lisboa, 24-01-2015

lisboa
Lisboa sabe a ginja quando a luz branca impede a margem.
Entre o fado e as gaivotas há um sentimento de coragem
Que ficou com as colunas amarradas ao cais.
Mesmo se as caravelas se fizeram países
E os Palácios Ministérios,
Mesmo se a estátua cavalga ainda para lado nenhum
E se o rio é mais mancha, água de deserto e
Céu alastrando sobre o Tejo sem barcos.
Mesmo se as gentes dizem coisas vulgares
E os amores-desfeitos esvoaçam como as folhas de jornais,
Matutinos do dia anterior
De rojo pelo chão no choro da praça.
Ainda que os vespertinos entupam a noite aos
Vivos, abandonando a sorte e provando a audácia,
Lisboa é perfeita quando sabe à grandiosidade do sossego que acaricia,
Ao suave marulhar do rio e das gentes na praça
Branca, emoldurada pelas arcadas de pedra
Que oportunamente reflectem o sol,
Banhando em cascata essas colinas
De onde os prédios, langorosos, parecem escorrer aos tropeções.
Há luxúria no calcorrear da calçada,
Amor nos bancos de pedra aveludada sentados defronte do rio,
E um inegável orgulho de partilhar a língua com a cidade,
De tratar por tu e cúmplice ser do fado vadio:
Há monumentalidade nos prazeres simples,
E loucura invejável na inflamada serenidade.

Hugo Picado de Almeida

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Textos

“La Goulue et Valentin-le-Désossé”

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[a partir de “La Goulue et Valentin-le-Désossé”, de Toulouse-Lautrec. Litographie, 1887]

O momento carrega em si os caminhos que levaram até ele.
Os olhares que me depositaram a mão na tua,
As palavras que da boca vão à cintura
Bordejando no compasso apressado, multiplicado
Na súplica do tempo forte que logo se anuncia,
Do tempo forte que é o nosso,
Precipitado em vaporosa cadência.

As histórias começam sempre a meio,
Na alta-velocidade do que não poderia deixar de acontecer.

Há em mim o que de resto é loucura,
A dança cambiante da certeza que não dura,
A dúvida insistente que prolonga a esperança
E nos entrelaça os braços.
Há em mim a ânsia expectante das tuas costas nuas.
O movimento do dedo feito agulha sobre a pele, lendo
Enquanto o cetim se faz vinil pelo prazer da melodia, crescendo,
E todo o corpo coluna, evolando-se o som
Que nos esborrata contra a vida.
Dissipa-nos as fronteiras que
Nos atraem e misturam
E nos servem assim, inesperados felizes,
Nos braços em passos de dança,
No corpo a corpo do combate próprio e a bonança,
Das cores indestrinçáveis num desenho de criança.

Hugo Picado de Almeida

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“Moulin Rouge”

220px-Lautrec_moulin_rouge,_la_goulue_(poster)_1891[a partir de “Moulin Rouge”, de Toulouse-Lautrec. Affiche, 1891]

Tous les soirs…
É teu o rosto e o nome e a cor
Que esses vultos reúne em mancha,
Para te ver através do fumo espesso
Onde a tua imagem escorre, lânguida,
Como as lágrimas de absinto que beijam o copo,
Desfocando o corpo, em ânsia.
Tous les soirs…
É a espuma da tua saia branca que neles brota,
O marulhar das sedas contra a barra da saia,
O rumorejar sedoso das ondas de renda que te acaricia a perna
E que desafia os olhos do profundo ao mergulho,
Ao vislumbre talvez náutico que deles faz marinheiros sem barco nem cais
Nesta margem da realidade em Paris.
Tous les soirs…
Postos eles assim de atalaia na amurada da pista
Enquanto danças, flexível, exímia,
No galope dos espíritos a rebate, perante
Os teus mastros de vidro tinto, em riste.
Dir-se-ia que disparam, troando no ar depois de vincarem o tabuado
Ao agitarem as águas vãs em que eles, de fraque, balançam.
Do aplauso, do brinde, do suspiro contido
Acusam no peito o êxtase dançado
Sem uma bóia que os agarre.
Se eles navegassem de facto e tu de Capri fosses sereia,
Do Mundo só se conheceria metade.

Hugo Picado de Almeida

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Sem título, com corpo

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A escrita é dança em ponto aproximado.
O abraço rubro entre a caneta e a mão que lhe acaricia o colo enquanto a faz girar em pontas.
Os passos deslizantes, por vezes sapateados, aplicados em complexas mudanças de compasso.
Saltos de colocar os pontos nos is, piruetas culminando em ós apertados, quase ilegíveis, e os movimentos desregrados, próprios, em que o artista se assina.
Talvez uma bailarina com os pés impregnados de tinta pudesse escrever o mais belo romance de todos.

Hugo Picado de Almeida

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Mapa de parede

IMG_20141226_092548Os quadros que tenho na parede do quarto distam uns dos outros meros centímetros, mas isso não os impede de continuarem a representar lugares a milhares de quilómetros de distância, daqui e entre si. Há nisso algo que me comove, ao ver a parede tatuada como um corpo de sinais, rotas num mapa que a parede subentende e incorpora, espaços por que se infiltra. Quando toda a parede se transforma em álbum, é a casa que se converte em viagem. Incessante e permanente.

Hugo Picado de Almeida

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À bientôt, Charlie!

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Nunca um tiro calou uma caneta,
Ainda que por terra destapada
Ela se esvaia na torrente da tinta que inunda.
Que o sangue mancha e preenche
E se faz nódoa para não ser esquecido
Como os Homens que se tatuam no Mundo
Com a resolução da tinta permanente.
Se o atentado alcança algo não é senão
O dar às vítimas a retumbante despedida,
Ao som da explosão, da salva de canhão
Feita banda-sonora à elegia destemida
Nas praças de Paris.
O que fica do atentado é a atrocidade original
Que elogia e confessa incontornável
Quem sabia levar a vida armado pelo poder de se rir.
Que aplaude e confirma inolvidável,
Que recorda e canta, e promete multiplicável
Quem a não ser com tinta entendia seu direito pedir.

Je ne suis pas Charlie, mais je ne l’oublie pas.
Je ne suis pas Charlie, mais il faut le devenir.

Hugo Picado de Almeida

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