Ficções

Legalidades

Uma destas noites sonhei que andava pela cidade um homem que não fazia senão envolver-se em cenas de crua pancadaria com as estátuas de bronze. Abeirava-se delas, cuspia-lhes cuspo ou uma injúria, arregaçava as mangas e disferia nelas golpes de punhos violentos. Ao cabo de algumas investidas, os nós dos dedos ensanguentados, inebriados em vinho de Bordéus, pareciam devolvê-lo à consciência, e ele afastava-se, condoendo-se das feridas.

A acalmia acalmava-o pouco, apenas até ao momento em que dobrava uma esquina e encontrava outra estatuinha ou estatuorra que o fazia pôr-se em mangas de camisa, de casaco no chão, sovando o metal e, bem assim, os dedos flagelados, encristados — não de crista, mas de Cristo seviciado. Fê-lo durante dias, semanas, durante meses. Ia deixando vermelho esborratado, como um fraco Pollock, sobre o ouro-esverdeado do bronze.

Um dia, um velhote que já há tempos o observava vergastando os digitais de encontro à arte pública pousou-lhe a mão no ombro, sustendo a respiração a um punho em voo de flaps cerrados. Trazia o cabelo desgrenhado, como que preservando nele o testemunho de anos mais ou menos vividos:

— Não perdeu já sangue bastante? Às estátuas não as pode vencer. — aconselhou em voz discreta.

— É precisamente por isso que devo continuar. — o homem terá dito algo mais, mas o retomar daquele boxe de sentido único abafou-lhe a voz.

Quando acordei, tive a certeza de que lá atrás, ainda no sonho, o homenzinho continuará a agredir todas as estátuas que encontre pela frente.

Hugo Picado de Almeida

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Pensamentos

Delírios do Acordo

É uma pena que o Acordo Ortográfico se tenha apostado em criar inimigos por toda a parte, e ninguém mais do que as próprias palavras pode desejar apanhá-lo num beco escuro, à saída de um bar numa noite de pândega bem demolhada, e numa emboscada cinematográfica enriquecê-lo com duas balas de cobre embutidas no bucho sem graça.

Já aqui falei sobre o Acordo Ortográfico, em que nada nem ninguém acordou coisa nenhuma. Isso parece-me evidente, tanto mais à luz das recentes notícias. Importa-me, agora, notar que o desacordo é mais grave do que poderá um leigo argumentar, dizendo que isso são coisas para os puristas se entreterem e os inocupados debaterem.

Podem dizê-lo e não os censuro por isso, pois que a culpa não é deles. A culpa é das mesmas gentes que compuseram e aceitaram o Acordo, esquecendo-se das origens da língua e atirando a etimologia, tão importante e tão interessante na forma como permite compreender passado e presente, o sentido das palavras e seus usos, e a racionalidade da escrita, para o caixote do lixo mais esquecido. A regra, como em tantas outras coisas, passou do perceber ao decorar.

Um arquitecto não é um arquitecto por acaso. Não é um arquitecto porque o Viriato ou o Sertório, num dia calmo em que não havia romanos para embuscar, decidiram que arquitecto soava bem com aquela que era a sua actividade, e poderíamos até felicitá-los por isso, pois assim ficariam livres outras palavras e sons para outras ocupações. Um arquitecto é um arquitecto porque os gregos lhe chamava arkhitektōn – como chegou aos gregos e sob essa forma já não sei, mas isso é um problema no qual não temos mão, ao contrário deste –, nascido de arkhi- (principal) e tektōn (construtor). É essa a razão pela qual o “c” faz falta antes do “t”, assinalando a filiação da palavra e também a abertura da vogal precedente, o “e”.

Oportunamente, afastava-se assim o «tecto» da «teta» (também do grego: thêta) — ou do «teto», seu sinónimo perfeito por alteração da palavra original.

O Acordo consegue, assim, a proeza de transformar o arquitecto, de construtor principal, em teta principal, e isso não nos deve passar despercebido. Afinal, faz uma pequena diferença. Eu, que tenho a teta em grande consideração, não gostaria porém de a ver desenhar uma casa. Inversamente, nunca me passaria pela cabeça fazer com o arquitecto aquilo que se pode fazer com a teta. Por respeito a ambos.

Hugo Picado de Almeida

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Pensamentos

O blog e o celacanto

Tenho tido um sonho recorrente.

Invariavelmente, o blog ganha pernas e larga a correr, repleto dessa felicidade que há-de animar os seres subitamente dotados de membros que concedam a habilidade da locomoção, e foge-me pela porta de casa, pela janela do computador, sem que eu consiga agarrá-lo. Sem que eu, aliás, consiga esboçar sequer um passo, como se cimentado num bloco ao jeito da Camorra que actua nos filmes. Acordo nadando entre suores profundos, esses onde o celacanto da África do Sul andará escondido, agora que os jornais noticiaram que os cientistas seguem no seu encalço.

De facto, tenho permitido que o blog vogue e vagueie há tempo demais, feito celacanto no lado em eclipse da internet. A comparação falha porque o peixe-fóssil-que-afinal-vive se oculta por saber que nas profundezas está bem melhor; porque sabe que a alternativa é ser escamado, escalado e fervido em soluções de diferentes teores, entre o Carbono-14 e o escabeche, na bancada de um laboratório. O blog, porém, habita os silêncios da rede porque este pescador lhe cortou a linha. E às palavras ninguém as vem procurar, de sonar e submarino e tudo.

Dá-me menos trabalho o celacanto do que o blog, mas só o segundo me interessa verdadeiramente. É altura de voltar a pegar na linha e esperar que ela, como normalmente as linhas de boas folhas fazem, traga as suas palavras por arrasto.

Hugo Picado de Almeida

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