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Isto não é um título

E isto não é um artigo.
Mas também não é um pedido de desculpas.
Nem, de forma inversa, se trata de uma acusação.
É, penso eu, uma confissão encapotada, sobretudo a mim mesmo; um ponto de ordem.

Outras exigências literárias, verdadeiramente literárias, se levantam neste momento com urgência de gigantes. Não são incompatíveis, nem será essa a principal razão para que a fornalha do blog tenha ultimamente tido de sobreviver com menos lenha. Não é exactamente esse o caso, mas também não deixa de o ser, de algum modo.

Durante os próximos dias fecharei um olho ao blog e à vontade de recuperar nele a consistência e o ritmo de outros dias. E não se trata de preguiça, mas da concentração alocada a um outro projecto, cuja vontade de fechar me tem consumido. Já falta pouco, porém.

É este o ponto de ordem: assumir que o blog não constará do campo de preocupações por uns dias, sobretudo para que os dedos não percam a forma como redigem um livro, que não é exacta nem necessariamente aquela com que redigem um artigo, aqui.

 

Hugo Picado de Almeida

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Literatura, Pensamentos

As armas de Chekov

No mundo da escrita, há uma dica que dá pelo nome de Chekov’s Razor — a navalha de Chekov –, atribuída ao famoso contista russo,  que recomendaria que se eliminassem sempre as três primeiras páginas do primeiro rascunho de um texto.

Dizia ele que era preciso não adiar demasiado o começo da acção, e que geralmente se gastavam três páginas em descrições vãs, detalhes supérfluos, caminhos secundários e aspectos de somenos importância.

Tenho algumas reservas em relação a esta arma de Chekov. Sou mais adepto da outra, a Chekov’s Gun — a pistola de Chekov, princípio em que o escritor russo defende que, se no início de um texto ou de uma peça se fala de ou se expõe uma arma, é muito necessário que alguém a dispare num capítulo mais adiante. Em todo o caso, não acredito que na literatura se deva fincar muito o pé em concepções que facilmente se tornam movediças, ou sequer tentar estabelecer regras universais.

O problema das regras em literatura será, talvez mesmo, o simples facto de elas serem aplicadas à literatura. A navalha de Chekov, por exemplo, seria uma ferramenta de grande préstimo para os discursos do Gaspar, e a pistola… Bom, o melhor será não falarmos da pistola.

 

Hugo Picado de Almeida

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Livros

Marcadores de páginas, contágio

Sei bem que tenho manias.

Ontem, por exemplo, já cansado de decorar o número da página de um dos livros que ando a ler, resolvi ir até à gaveta para me socorrer de um marcador. O primeiro candidato que me veio à mão, soerguendo-se do molho onde os tenho, foi um alusivo a um livro do Paulo Coelho: Monte Oito, ou sete ou seis, já não sei bem nem me dignei a ir procurar. Larguei-o de imediato, como se receasse a peste, subindo-me pelo braço como há séculos trepou pela perna da Itália. Um marcador a dizer Paulo Coelho num livro do Sartre? Um marcador alusivo a um escritor de misticismos e alquimias e espiritualidades no L’Existentialisme est un Humanisme? Seria preciso eu estar doente, demente, para fazer tal afronta ao Sartre, ensanduichando-lhe entre as páginas, apertado contra elas, o incenso e as purpurinas do Paulo Coelho.

Fui, portanto, em busca de outro marcador. Afinal, se os marcadores marcam as páginas, é preciso cuidado com aquilo a que as expomos. Sei bem que isto talvez não seja nada, mas a mim faz-me diferença.

 

Hugo Picado de Almeida

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Música, Metro, Pessoas

Histórias a Metro #6

Entrou ontem no Metro, na carruagem que ao fim da tarde fiz minha, uma japonesa, pelo menos na ascendência. Vinha de sacola ao ombro e auscultadores nos ouvidos, expedita nos seus talvez trinta anos. Metida consigo, largou a despreocupada mala no chão, equilibrando-a junto ao poste no centro do vagão. Esperou que a carruagem se pusesse em marcha, encontrando o ritmo que mais lhe convinha, e quando esta atingiu o seu passo certo, ensaiou também a japonesa os seus passinhos de dança, que acompanhou com o cantar alegre do que me pareceu uma música remotamente conhecida.

E zás!, dir-se-ia que apanhou a carruagem desprevenida, ali entre o queixo e a bochecha, pintando-lhe o canto dos lábios num esborratado carmim. E logo uns quantos chamuscados olhares portugueses, que a crise tem sucedido em embaciar, a executaram com um tiro na cabeça e outro no peito, ali à queima-roupa, como se cantarolar no Metro fosse uma afronta mas o olhar da censura, de alto para baixo, ali a dois passos, fosse coisa perfeitamente natural. Ela, surpreendida pelos golpes de vista que notoriamente não esperara, envelopou-se novamente no silêncio e ali ficou, ainda que nos seus olhos se notasse que continuava presente naquele concerto que era só dela.

Deveria ter-me abeirado dela e dizer-lhe que continuasse a cantar.

Perdoem-me; este artigo parece-me pouco satisfatório. Se calhar teria sido melhor se concluísse que, um dia, talvez esta senhora rebente uma carruagem do Metro, ou pelo fogo exponha a carcaça carcomida de um qualquer autocarro por esta desfeita que no passado lhe fizeram. E aí todos nos condoeremos e contorceremos, exclamando que «era tão boa rapariga», «e sempre tão alegre!», e que «nunca se esperaria algo assim, de uma vizinha sempre tão prestável e bem-educada; via-se bem que era uma senhora», e «ó!, que bem que ela cantava…»

Ou talvez não falhe assim tanto os seus propósitos. Afinal, o Ary dos Santos era bem capaz de ter razão. Também «é preciso dizer das coisas o somenos que elas são.»

 

Hugo Picado de Almeida

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Livros, Política

O espanto visto daqui

«É preciso deixar a facilidade para os “fáceis”. Salvo raras excepções, o que os políticos não nos perdoam é nós podermos fazer o que eles fazem, mas eles não serem capazes de fazer o que a gente faz. No fundo, odeiam-nos. (…) Os piores são até os que se armam em cultos. No antigamente, os anticultos cortavam-nos o pio. Agora, os pseudocultos apaparicam-nos para ver se nos castram. (…) O que todos querem é que a malta que borra o papel ou que faz mamarrachos, sobretudo a malta que pensa, não cumpra uma das suas grandes obrigações: a de lhes dizer, a cada momento, que eles são apenas o sopeirame do povo, a criadagem de todo o maralhal, e que se a gente os elege e se a gente lhes paga (que remédio!) não é para eles andarem por aí a dar-se ares, a enriquecerem desavergonhadamente, a portarem-se como novos-ricos, a pensarem que sabem arrotar em várias línguas como o tal Ramelas…», Um Amor Feliz, David Mourão-Ferreira, 1986.

Espantamo-nos sempre que encontramos num escritor mais ou menos antigo — um Eça ou, mais recentemente, um Mourão-Ferreira — a crítica política perfeitamente adequada à realidade contemporânea. Deveríamos, isso sim, admirarmo-nos com o facto de, anos e anos volvidos, a política e os políticos não terem mudado nada, e mais ainda com o consentimento que nós lhes temos dado.

 

Hugo Picado de Almeida

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Cinema, Literatura, Pensamentos, Política

Miseráveis talvez hoje, mas não amanhã

Não sei se Victor Hugo sabia inglês e se lhe teria sido possível, portanto, ter compreendido a versão hollywoodesco-musical do seu romance Os Miseráveis, mas estou em crer que sim, pois certamente teria podido reconhecer as suas personagens e a trama que ele próprio engendrou.

A interpretação de Tom Hooper, agora nos cinemas, é capaz de fazer chorar o deserto mais seco e exaurido, pelo que tem sobre os Homens o natural poder de os arrasar, deixar de joelhos mesmo sentados na cadeira, deixando-os à mercê dos pensamentos e perspectivas mais negras sobre os imponderáveis da vida. Pensei que talvez tivesse interesse sentar Victor Hugo num dos cadeirões estofados dos nossos cinemas e pô-lo frente a frente com a criação que, em boa verdade, é sua. Seria interessante pô-lo ali e ver se chorava como os demais — e isso seria até muito bem feito, por ser sua a matéria-prima de um dos filmes mais tristes e duros que o cinema já me deu a ver –, ora por sentir culpa por ter feito Os Miseráveis tão evidentemente, tão brutalmente miseráveis, ora pelos avisos e acusações que o filme torna evidentes, de indicador espetado fora da tela; razão única, aliás, para que o filme não se exiba em 3D, imagino.

Depois de pôr tudo em perigo — da família ao amor, à justiça, ao passado, à honestidade e à camaradagem e, enfim, à própria vida — para provocar nos espectadores a experiência da angústia com diferentes fundações e roupagens, de Verão e de Inverno, o filme parece deixar a promessa de uma vitória: «Do you hear the people sing? / Say, do you hear the distant drums? /It is the future that they bring / when tomorrow comes!»
É esse um dos méritos da literatura. Se não o de nos salvar por comparação, pelo menos o de propor saídas e apontar caminhos certos, por onde têm seguidos os Homens bons, os melhores.

Procurei um dia Victor Hugo no seu número 6, Place des Voges, mas ele já não estava lá. Penso que gostaria de tê-lo na sala do cinema, para que o pudessemos cumprimentar à saída, neste Portugal de 2013, tão precisado de tambores e barricadas, amor e camaradas.

 

Hugo Picado de Almeida

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Cultura, Literatura, Livros

Os donos dos livros

No meu quarto tenho mais de 500 livros, cujos autores, editoras, edição e respectivo ano, número de páginas e idioma reúno numa lista que actualizo de cada vez que um novo volume entra pela porta.

Não sou tão dono de nada quanto sou dono de livros.

E sei que, ainda que eles sejam só 500 e eu tenha apenas 24 anos, é grande a probabilidade de não os vir a ler a todos. Sei bem que comprarei mais, muitos mais, e que alguns desses passarão à frente de alguns já inquilinos das minhas estantes. E sei também que alguns desses que comprarei acabarão por permanecer sossegados nas prateleiras a ver outros, mais antigos, serem lidos no seu lugar.

Nunca desejei ser rico como aqueles que julgam que a riqueza em si é um valor a perseguir. Gostava de viver fazendo apenas aquilo de que gosto e com certo desafogo, é claro, mas talvez gostasse sobretudo de ter dinheiro para poder andar por aí, tranquilamente, lendo todos os livros que me seguram as estantes e os que ainda as hão-de segurar.

Gostava, sei-o bem, de me dedicar a eles.

 

Hugo Picado de Almeida

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