Metro

Histórias a Metro #5

Encontrar casais desequilibrados no Metro é algo que, embora triste e doloroso, tem por vezes o dom de dar cor aos dias, quando a estupidez se mistura na equação.

Ontem, seguia um destes pares deslaçados no Metro, ao meu lado. Ele já ia na carruagem. Ela entrou na Cidade Universitária, creio. Sem falar, ela pregou-lhe um beijo seco, básico, rápido, insonso, ainda que este último adjectivo eu não o possa comprovar. Mas pareceu-me, digamos assim, e não o discutamos mais.

Ainda sem falarem, ele pôs-se a dançar com a cabeça, para a esquerda e para a direita, para observar as madeixas dela que, escuras e lisas, lhe escorriam dos dois lados do rosto, fugindo como estalactites de um gorro grosso que lhe ficava mal. Ela fitava-o, quieta. De seguida, ele assentou-lhe uma mão aberta sobre o alto da cabeça. Ela explodiu:

– Qu’é que tu ’tás a fazer?

Ele retirou a mão e murmurou algo de que não fui capaz de extrair sentido.

– Não sejas parvo. — avisou ela. Depois, olhou para o livro na mão dele, e disse:

– Qu’é isso? Agora ’tou a ler o Prézinger.
– Prizinger.
– Prézinger.
– Prizinger. Em inglês não há o som é.
– E o qu’é qu’eu disse? Prêzinger.
– Prézinger.
– Pois, Prêzinger.
– Vês? Prézinger!
– Já não te posso ouvir! Prêzinger! Parece que não sabes falar, tu.

Tive muita pena de não continuar a assistir àquela história de amor, pois o final prometia divertir-me grandemente.
Se eu tivesse mais lata, e fosse eu talvez alguém mais decente, tê-los ia aconselhado a sair em estações diferentes e a que se esquecessem mutuamente. Salvavam-se, assim, duas vidas, uma casa, um carro, talvez até um cão e, sobretudo, aquele secador de cabelo que um dia hão-de atirar pela janela.

 
Hugo Picado de Almeida

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Crise, Cultura, Política

Europa, Turopa, Eleropa

Sou um europeísta convicto. Isso significa que não sou meio-europeísta, semi-europeísta ou a-modos-que-europeísta.

Significa também, por arrasto, que não posso olhar para aquilo em que a Europa se tornou sem desgosto, e menos ainda para aquilo em que a Europa ameaça tornar-se. O problema da Europa é ter ficado a meio, ter feito aquilo que não era difícil e com que todas as pessoas minimamente providas de inteligência e humanidade poderiam concordar. É certo que muitas coisas foram feitas — e muito bem feitas –, mas não houve coragem para levar o projecto por diante. Uma União Europeia que não caminhe para uns Estados Unidos da Europa é coisa sem sentido, porque não é nada senão uma massa informe, a meio caminho entre o tudo e o nada, coisa que se alia quando tudo está bem e se divide quando tudo corre mal; como os países sozinhos, de resto. O que falta à União Europeia será, talvez, maturidade e melhor consciência de si e do que se passa no seu interior.

Os Estados Unidos da Europa só não avançaram, em última instância, porque a Europa vive ainda à sombra das suas guerras e dos seus fantasmas, e porque os seus Estados vivem no pânico da perda da soberania. E o pânico tolda-lhes de tal forma a visão que não são capazes de ver — nem sequer levantam já a voz — que a liderança singular que temem nos Estados Unidos da Europa, onde o processo seria regulado e onde as eleições o legitimariam, é aquilo que têm hoje, em versão ilegal, na União Europeia, onde a Alemanha ignora todas as fracas instituições europeias e se faz senhoria do prédio, desejo que sempre alimentou. E nenhum inquilino a contesta — mas que não se fale no federalismo, isso não!

Hoje, porém, não é de todo o tempo para o federalismo, mas é hoje que a Comissão Europeia vem resgatá-lo, como se tal fosse ainda remotamente possível. Quando era talvez mais fácil, não o fizeram. Hoje, cercados pela crise, com os países uns contra os outros, sucedendo-se as declarações mais anti-europeístas e em total desrespeito pelos princípios fundadores da União, com a cooperação a um pequeno acontecimento de se extinguir em cinzas, e o respeito também, parece-lhes esse o momento ideal para reunir todos os cidadãos da Europa sob um mesmo tecto?

A desilusão da Europa é, no fundo, a desilusão do Humanismo e a derrota do Homem. Algo de tão bonito caiu-nos aos pés, estrangulado pelas mãos do liberalismo cego e da ganância, nas quais nos depositámos. Enquanto os sistemas económicos se sobrepuserem aos sociais, enquanto preferirmos abdicar daquilo que de bom construímos por aquilo que mais brilhantemente nos destruirá, estaremos a escolher a animosidade e a vertigem das guerras.

 

Hugo Picado de Almeida

Luís Afonso, «Bartoon» no Público de 14 de Dezembro de 2012. Formato adaptado.

Luís Afonso, «Bartoon» no Público de 14 de Dezembro de 2012. Formato adaptado.

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Sem categoria

Senhor Ministro, dê-me um Lá

Esta manhã, seguia no Metro com os auscultadores postos, atento ao jazz maravilhoso dos Vijay Iyer Trio. Surdo, por isso, para as vozes das pessoas além dos auscultadores, pareceu-me que muito melhor poderia ser se algumas pessoas vissem o seu aparelho vocal transformado num instrumento musical como os demais.

Evidentemente, o mundo talvez se tornasse local mais aprazível se, por vezes, as pessoas falassem a linguagem dos pianos, se pedissem desculpa na voz dos contrabaixos, ou se debitassem palavras no jeito malabarista das baterias. Lamento a aproximação fácil e populista à política, mas os tempos que vivemos assim parecem exigi-la, e eu culpo-os por me levarem tantas vezes por esse caminho descendente, lavando daí as minhas mãos. Convenhamos: mesmo um solo de fagote, instrumento que raramente convence um compositor a confiar-lhe tal protagonismo em concerto, seria infinitamente melhor do que um discurso do Passos, e as conferências de imprensa do Gaspar davam já um concerto de boa dimensão, se tivessemos por Ministro um saxofone, por exemplo, instrumento capaz de ostentar boas olheiras ministeriais, em função das noitadas em bares. Tudo seria assim mais agradável, e não teria qualquer desvantagem. Afinal, nenhum instrumento pode insultar tanto as pessoas como as palavras de um Relvas, nem nenhuma linha melódica soa tão deslocada como uma intervenção do Álvaro. E, a bem dizer, não é sequer provável que um violencelo engravatado tivesse pior desempenho na condução de um qualquer Ministério do que os actuais ministros. Os humanos têm-no feito já tão mal…
Talvez por isso Jacques Brel, dotado de especial sensibilidade para as coisas da vida e dos Homens, tenha confessado um dia: “Sempre tive o desejo de ser um instrumento”.

Hugo Picado de Almeida

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Pensamentos

Gostava mais disto quando…

Gostava mais disto quando as máquinas se nos entregavam como ferramentas e se limitavam a fazer o seu trabalho bem feito.

Não me apraz nem um bocadinho que as máquinas, de repente, se armem em espertas e se ponham a deitar palpites para o ar, feitas donas do pedaço, observando com certa sobranceria tudo aquilo que fazemos nelas, tornadas juízes do mundo. 

Hoje, o Word assinalou-me uma frase no seu sublinhado verde, dizendo «Locução própria do nível de linguagem informal.» Depois de aplacar a vontade de aplicar um sopapo no rosto luminoso do computador sorridente — não sem usar contra mim o escárnio de quem julga tudo saber –, continuei a ler, que o programa acrescentava, paternalista, «Pondere o emprego de uma expressão alternativa.»

Não imagina a maquineta, porém, que a linguagem informal pode ser desejada, porque a engenhoca não sabe senão aquilo que outras gentes puseram nela, gentes que também não são capazes de destrinçar certas coisas. O problema está em que, aquilo que na boca desses indivíduos era mera opinião, na matemática dos computadores se torna lei e certeza, e se insinua sobre todos os que devem lidar com eles. É assim que as máquinas hão-de dominar o mundo, empossando as gentes de vistas curtas e cinzentas de poder legislativo. E executivo. E judicial…

 

Hugo Picado de Almeida

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Pensamentos

Inquietação

[texto escrito em data anterior]

O que é que fiz hoje, afinal?

Trabalhei, ganhei o meu salário, mas o que é que fiz verdadeiramente? É certo que li um pouco de Sartre, que aprendi sucintamente sobre a forma como as alterações climáticas têm influenciado a espécie humana já desde há doze e há cinco mil anos, do Estreito do Bósforo à Gronelândia, respectivamente, e que assisti na Gulbenkian à apresentação de um fragmento de tecido persa, do período safávida, representando Alexandre, o Grande, peça oferecida a Calouste Gulbenkian por um arménio cujo nome não fixei.

Mas será que isso chega? Poderá isso legitimar a noite de modorra e a sesta que acometeu contra mim no sofá? Pode isso valer, de facto, para justificar o passar de um dia? Não posso deixar de sentir que não fiz o suficiente, que não fiz o mais devido, e que o dia passou sem se assinalar no calendário, sem que – se não escrevesse este texto, e mesmo escrevendo-o – nada o fixe na minha memória daqui por alguns tempos. Parece-me, de algum modo, que o término do dia anterior se colou ao princípio do dia seguinte, e que este de que falamos passou sem ter chegado a passar. Imagino isto como se às rodas dentadas do relógio faltasse um dente, permitindo o saltar de uma porção de tempo, anulando um pedaço do espaço, e pior, anulando sequer a consciência de tudo isso.

Por tudo isto, talvez não fosse má política os dias terminarem apenas quando lhes déssemos ordem para tal.

 

Hugo Picado de Almeida

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Ciência

As maçãs caem sempre para baixo

Um destes dias à noite, ao ouvir no canal de História a teoria de que o Sol poderá ter uma estrela gémea maléfica, Némesis, também conhecida por «estrela negra» pela quase ausência do seu brilho, senti-me a ser evangelizado.

De acordo com alguns astrónomos, esta será a explicação para que, de 26 em 26 milhões de anos, extinções em massa ocorram na Terra, então banhada por uma chuva de asteróides durante um milhão de anos por razões curiosas e plenas de sentido, mas que aqui não terão eco. De facto, acreditar na astronomia teórica, com tudo o que isso tem de fascinante e com todo o seu sentido físico, não anda longe da crença religiosa.

Lembrei-me, então, de uma conferência genial a que assisti há coisa de dois meses, pelo Professor Ian Angell. Dizia ele, apresentando as ideias do seu recente livro Science’s First Mistake (escrito com Dionysios Demetis), que no mundo não existe causalidade; apenas na mente humana. A proposta de Angell é pelo próprio brilhante e atraentemente condensada: «A maçã de Newton não caiu por causa da gravidade; caiu porque é isso que as maçãs fazem.»

A teoria de Angell é que o mundo não é senão aquilo que é, e que só tem explicações na mente humana. O que acontece aconteceria simplesmente, sem que a ciência tenha mão nisso, sem que aconteça pelas explicações e conceitos que ela nos dá. De facto, tudo poderá ser ilusão e mentira, pois tudo é nosso produto ficcional: tudo é caracterizado e categorizado de acordo com a nossa tomada de vista. Em boa verdade, não compreendemos nada, diz-nos Angell na esteira de John von Neumann: não compreendemos nada, apenas descrevemos e nos habituamos às coisas tal como as vemos. A teoria pode até ir mais longe, e aqui encontra o seu corolário: uma grande percentagem dos elementos que permitem explicações à química e à física são hipótéticos, a começar pelo Bosão de Higgs, pai ou padrasto de grande parte da nossa explicação para o funcionamento do mundo.

Resumindo e, talvez, complicando, todo o conhecimento é ilusório. Tudo aquilo que aprendemos sobre os fenómenos do mundo não é conhecimento sobre o mundo, mas conhecimento sobre o conhecimento, isto é, conhecimento sobre a nossa forma de lidar com o mundo. Afinal, «as leis da Natureza estão apenas na nossa cabeça», diz Ian Angell, mas, bem vistas as coisas, «as teses desta conferência também», e é o próprio que o afirma.

Ian Angell, porém, não deixa de avisar que nada tem contra a ciência, pois ela é a ferramenta mais útil que fomos capazes de divisar para acedermos ao mundo e o assimilarmos, para lidarmos eficazmente com os nossos problemas e incertezas. É também por isso que não mudo de canal e fico a ouvir e a convencer-me sobre o sentido que faz existir uma gémea maléfica do Sol, e como pode a sua existência nos moldes em que acreditamos que ela exista explicar as extinções em massa na nossa Terra.

Como diz o meu amigo Adalberto, «quando estiver numa cama de hospital, quero um médico que não saiba nada de filosofia».

 

Hugo Picado de Almeida

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