Arte, Crise, Cultura, Televisão

A moeda mata a Arte

Parece que a RTP2 vai fechar brevemente. Mais uma vez o adágio popular se confirma: tudo o que é bom acaba cedo.

Isto, porém, não deve surpreender-nos. Acaso esperávamos que um país que não se preocupa nem com a sua saúde nem com o seu futuro depositasse as suas atenções na Cultura?

E o problema não é de agora; o problema está no agudizar da força com que hoje se pisoteia a Cultura. O problema, uma vez mais, reside no capitalismo e nesse bicho-papão que é o mercado, com a diferença de que este existe, claro. O que fazia da Arte, Arte, era o seu valor estético, o seu valor filosófico, o seu valor, por assim dizer, artístico. Isso, porém, reduz-se hoje a um punhado de indivíduos cujos interesses e sensibilidade — e, porque não dizê-lo, uma certa falta de dinheiro para tomar a Arte noutros valores — por aí os levam.

O mercado da Arte é precisamente aquilo que a destrói.

Novamente, a moeda subverteu tudo. E muitos artistas (e outros que por isso se fazem passar) — não por culpa própria, porque também são humanos e também têm, consequentemente, essas estranhas necessidades de comer e de viver — acabam por sucumbir sob os pesados rodados mercantilistas, assim expurgando a sua Arte daquilo que a caracteriza como tal. Temos, hoje, a sensação de que já não há grandes escritores, pintores ou escultores; ouve-se dizer, mais vezes do que seria suportável, que isso da Cultura são coisas de gente morta. Antes, a Arte florescia porque tinha mecenas; porque quem tinha dinheiro — e interesse na Cultura — tomava nos seus encargos um artista cujo trabalho admirava ou considerava importante. Hoje, quem tem dinheiro, recorre aos grandes circuitos do mercado da Arte, e aquilo com que sonha é que as visitas rejubilem ao ver um quadro de quinhentos mil euros pespegado na parede da sala, e que exultem na audição do valor — o seu interesse na Cultura é o interesse pela monetarização da Cultura –, e que se maravilhem o suficiente para não reparar nos exemplares de Nicholas Sparks ou Danielle Steel sobre a mesa do café. Não me interpretem mal: eu também fico todo meloso na presença de um quadro de quinhentos mil euros, mas não é pela numeração na etiqueta.

E apesar de tudo isso, espera-se — com esperança messiânica, certamente –, que os artistas de algum modo continuem a produzir, assim como se espera que Portugal pague as suas dívidas e deixe a crise a comer pó. Não interessa bem de que vivem e como vivem os artistas, mas exige-se que continuem a produzir. Hoje, porém, tal é cada vez mais difícil. Porque hoje a Cultura dominante é a do light — haverá melhor indício de que o que queremos mesmo é comer o mundo, e de que aquilo com que nos preocupamos é com o estômago –, e o artista deve produzir tendo em mente o público, tendo em mente a venda, e raras vezes os verdadeiros artistas têm a sorte de que o público comum aprecie a sua obra. Era artista, mas agora exige-se-lhe também que seja marketeer e prostituto. Por tudo isto, parece que pouco faltará para que sejam os artistas a pedir autógrafos ao seu público.

Resta pegar no governo, mas também em todos esses Homens comuns e cinzentos, como lhes chamava D. H. Lawrence, que por aí andam, pelo colarinho, e bradar-lhes com o bafo bem perto do rosto: É a Cultura, estúpido!

 

Hugo Picado de Almeida

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