Pensamentos, Pessoas

O Estado (das coisas)

Ao que parece, e como se pode testemunhar neste vídeo, um grupo de empregadas domésticas decidiu juntar-se no Chiado para pintar um cartaz, sem que houvesse qualquer intenção de provocar uma manifestação. A polícia chegou e perguntou se tinham autorização do Governo Civil para ali estarem – sabemos como a legislação para o uso do espaço público em Lisboa é ridícula, havendo até fotógrafos que já foram multados por nalguma rua terem montado o seu tripé -, mas, não contente com isso, a autoridade identificou-as e informou-as de que serão prontamente intimadas a comparecer em tribunal.

Faz-me isto lembrar tempos que nem sequer vivi. Tempos em que mais de três pessoas juntas eram consideradas uma manifestação, ou pior, um grupo em conspiração. Naturalmente, estas senhoras tiveram o azar de ser quatro. Um Estado que se sabe culpado é um Estado que teme tudo.

Hugo Picado de Almeida

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Arte, Cultura, Literatura, Livros

Não convém confundir a literatura com a escrita

A literatura não vende; a escrita sim.

E a escrita vende porque não exige que se pense muito. A escrita vende porque imita mais a (má) televisão do que a literatura. Mas se é a televisão que queremos, já temos a televisão. Querer os livros iguais à televisão… É assim que se mata a literatura.

Este país não é para Livros… É para coisas escritas. Sobre cancro, se possível, ou sobre um miúdo que, diz o pai, que é pastor baptista, falou com deus. É por isso que a única livraria lisboeta especializada em poesia, a Poesia Incompleta, fechou esta semana. É por isso que em algumas livrarias nos convidam a deixar Os Maias pelos vampiros da Stephanie Meyer, e é também por isso que a Europa-América, outrora dona de uma catálogo invejável, está à beira da falência.

Talvez seja também por isso que muito poucos são os autores portugueses que conseguem chegar às prateleiras, e, entre os que lá chegam, poucos são os da literatura. Como é que um José Rodrigues dos Santos chega aos 80 mil exemplares e um Gonçalo M. Tavares fica pelos 2 mil, ou mesmo Saramago, o nosso Nobel, que circula entre os 5 e os 10 mil por edição? Felizmente ainda há bons autores portugueses, e alguns com bastante destaque, mas são apenas esses os que surgem entre os muitos bons autores portugueses que todos os meses editam livros, ou que não os conseguem editar; claro que há muito joio, mas as livrarias, e por vezes as editoras, deixaram de procurar separar o trigo do joio, até porque o que é joio para a arte, é muitas vezes trigo para elas.

O problema da literatura é esse. Ela expressa-se no mesmo modo da escrita, e isso permite a quantidade de (maus) livros que vemos hoje em qualquer lado. A pintura não se mistura com seus usos industriais ou civis. A escultura não se confunde com uma pedra amassada de qualquer forma. Mas escrever toda a gente sabe, mal ou bem, e o problema está aí: «mal ou bem».

 

Hugo Picado de Almeida

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Media, Pensamentos

Os jornalistas, o direito e o dever

Para alguns jornalistas, o direito de informar é uma paywall.

É pena que esqueçam, quando evocam o direito de informar, que o fazem muitas vezes dizendo: «O público tem o direito de saber!»

O problema é, então, que quem clama pelo direito de informar nada queira com o direito à informação, ainda que assim o diga. Transformam-nos o direito de saber em dever de saber, e assim lucram duas vezes.

 

Hugo Picado de Almeida

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Literatura, Livros, Pessoas

Morreu Antonio Tabucchi

Não fazia ideia de que Antonio Tabucchi, um dos maiores escritores italianos do nosso tempo, era apaixonado por Portugal.
Não fazia ideia de que Tabucchi, especialista em Fernando Pessoa, era casado com uma portuguesa.
Pior, não fazia ideia de que Tabucchi vivia em Lisboa durante a maior parte do ano, e que tinha até adquirido a nacionalidade portuguesa em 2004.
Tristemente, não sabia também que Tabucchi lutava contra um cancro; vim apenas a saber que faleceu este domingo, dia 25 de Março de 2012.

Graças a uma dessas curiosidades que por vezes se revelam fatais, no sábado, último dia completo da vida do escritor, estive com um livro seu na mão. Por um qualquer acaso, pousei-o para ver outros livros, e depois acabei por me ir embora sem o comprar, e temo bem que isso tenha precipitado os acontecimentos.

Diz-se, e com razão, que os livros sobrevivem aos seus autores. Mas se os pousamos à partida, remetendo-os para o coma incerto dos livros nas prateleiras de ninguém, onde, mortos antes do tempo, ansiosamente aguardam um leitor, que hipótese estamos a dar ao seu autor?

Hugo Picado de Almeida

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Arte, Cultura

Hoje não há título

New York, 1951 (third version, after lost original of 1913). Metal wheel mounted on painted wood stool, 51 x 25 x 16 1/2″ (129.5 x 63.5 x 41.9 cm). The Sidney and Harriet Janis Collection. © 2012 Artists Rights Society (ARS), New York / ADAGP, Paris / Estate of Marcel Duchamp

Já todos ouvimos a célebre crítica à arte moderna/contemporânea: «Ah, isso eu também fazia».

Não deixa de ser curiosa a noção que as pessoas têm de que fazer arte lhes está vedado: «para ser arte, tem que ser algo que eu não possa nunca fazer», parece ser essa a fórmula, de algum modo tributária do star system que há muito tempo já não é apenas o do cinema.

O que quero dizer é que aquilo que muitas vezes passa ao lado de quem passa ao lado dos museus é que o objecto de arte não se esgota nos seus limites físicos, na sua moldura, e que a sua existência importa na medida dos seus produtos incorpóreos. O triunfo da arte, e a sua razão de existir, são as reflexões que produziram os seus objectos, e os pensamentos e relações que através dela se podem construir, mesmo se o seu objectivo é desafiar os limites da arte, ela própria.

A Roda de metal montada sobre banco de madeira pintado de Duchamp, mais acima, pode ser esteticamente discutível, e a sua execução não terá apresentado grandes obstáculos, mas o seu interesse está mais no seu antes e no seu depois.

Se assim não fosse, há muito que os Pollocks, Duchamps, Chamberlains e Tàpies teriam deixado de impressionar. E nunca deixaram.

Em suma, o que aqueles que dizem «Ah, isso eu também fazia» estão, na verdade, a dizer, é que isso também eles faziam, se alguma vez tivessem pensado nisso. É que mais do que lhes responder: «Podias, mas não fizeste», devemos responder: «Podias, mas não pensaste.» Como se costuma dizer: a inspiração acontece, mas deve apanhar-nos a trabalhar.

 

Hugo Picado de Almeida

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Crise, Política

Violência policial

Quando a polícia se torna inimiga do povo que jurou proteger, esse é o primeiro sinal de que a nossa sociedade democrática já deixou de o ser. O segundo revela-se quando o povo deixa de acreditar na sua polícia para o proteger.

Daí, não vai senão um passo até que o Governo comece a arranjar meios para justificar a violência, ou que se torne proibido falar de certos assuntos.

É claro que uma sociedade democrática também exige um povo à altura – já vimos como a democracia facilmente se torna em inapelável vacuidade se os seu povo deixa de se importar com ela, ou de batalhar por ela (ou de batalhar sem ser por ela).

É preciso, no entanto, que a polícia também faça parte desse povo, e que saiba o que é a democracia. Claro que isso significa que a polícia saiba dialogar com o seu povo, porque a democracia não sobrevive sem comunicação, e é isso que termina mesmo antes de começar quando se atiram ovos à polícia ou quando a polícia carrega indevidamente sobre manifestantes.

A democracia precisa de respeito, consciência, e diálogo. E basta um cassetete para terminar com tudo isso.

 

Hugo Picado de Almeida

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Livros, Pessoas, Política

A jibóia e o elefante

in O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry

Como dizem os jovens artistas que pintam murais nas barreiras erguidas junto aos edifícios governamentais do Cairo: “Vocês podem construir as paredes que quiserem, mas nós não as vemos”.

O segredo, aqui como em tantos outros sítios, é insistir que a jibóia não comeu o elefante, e que é apenas um risível chapéu torto. Assim se pacifica e aniquila a jibóia.

Hugo Picado de Almeida

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