Cinema, Literatura, Pensamentos, Política

Miseráveis talvez hoje, mas não amanhã

Não sei se Victor Hugo sabia inglês e se lhe teria sido possível, portanto, ter compreendido a versão hollywoodesco-musical do seu romance Os Miseráveis, mas estou em crer que sim, pois certamente teria podido reconhecer as suas personagens e a trama que ele próprio engendrou.

A interpretação de Tom Hooper, agora nos cinemas, é capaz de fazer chorar o deserto mais seco e exaurido, pelo que tem sobre os Homens o natural poder de os arrasar, deixar de joelhos mesmo sentados na cadeira, deixando-os à mercê dos pensamentos e perspectivas mais negras sobre os imponderáveis da vida. Pensei que talvez tivesse interesse sentar Victor Hugo num dos cadeirões estofados dos nossos cinemas e pô-lo frente a frente com a criação que, em boa verdade, é sua. Seria interessante pô-lo ali e ver se chorava como os demais — e isso seria até muito bem feito, por ser sua a matéria-prima de um dos filmes mais tristes e duros que o cinema já me deu a ver –, ora por sentir culpa por ter feito Os Miseráveis tão evidentemente, tão brutalmente miseráveis, ora pelos avisos e acusações que o filme torna evidentes, de indicador espetado fora da tela; razão única, aliás, para que o filme não se exiba em 3D, imagino.

Depois de pôr tudo em perigo — da família ao amor, à justiça, ao passado, à honestidade e à camaradagem e, enfim, à própria vida — para provocar nos espectadores a experiência da angústia com diferentes fundações e roupagens, de Verão e de Inverno, o filme parece deixar a promessa de uma vitória: «Do you hear the people sing? / Say, do you hear the distant drums? /It is the future that they bring / when tomorrow comes!»
É esse um dos méritos da literatura. Se não o de nos salvar por comparação, pelo menos o de propor saídas e apontar caminhos certos, por onde têm seguidos os Homens bons, os melhores.

Procurei um dia Victor Hugo no seu número 6, Place des Voges, mas ele já não estava lá. Penso que gostaria de tê-lo na sala do cinema, para que o pudessemos cumprimentar à saída, neste Portugal de 2013, tão precisado de tambores e barricadas, amor e camaradas.

 

Hugo Picado de Almeida

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