Livros, Política

O espanto visto daqui

«É preciso deixar a facilidade para os “fáceis”. Salvo raras excepções, o que os políticos não nos perdoam é nós podermos fazer o que eles fazem, mas eles não serem capazes de fazer o que a gente faz. No fundo, odeiam-nos. (…) Os piores são até os que se armam em cultos. No antigamente, os anticultos cortavam-nos o pio. Agora, os pseudocultos apaparicam-nos para ver se nos castram. (…) O que todos querem é que a malta que borra o papel ou que faz mamarrachos, sobretudo a malta que pensa, não cumpra uma das suas grandes obrigações: a de lhes dizer, a cada momento, que eles são apenas o sopeirame do povo, a criadagem de todo o maralhal, e que se a gente os elege e se a gente lhes paga (que remédio!) não é para eles andarem por aí a dar-se ares, a enriquecerem desavergonhadamente, a portarem-se como novos-ricos, a pensarem que sabem arrotar em várias línguas como o tal Ramelas…», Um Amor Feliz, David Mourão-Ferreira, 1986.

Espantamo-nos sempre que encontramos num escritor mais ou menos antigo — um Eça ou, mais recentemente, um Mourão-Ferreira — a crítica política perfeitamente adequada à realidade contemporânea. Deveríamos, isso sim, admirarmo-nos com o facto de, anos e anos volvidos, a política e os políticos não terem mudado nada, e mais ainda com o consentimento que nós lhes temos dado.

 

Hugo Picado de Almeida

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