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Regras para deitar um escritor #1

Assim como os bebés não devem ser deitados de barriga para baixo, para que não sufoquem no seu bolçar, também aos escritores se deve evitar deitá-los nesta posição. De cabeça caída sobre o caderno escancarado há o risco de que morram aspirando as palavras que nem sempre da forma mais acertada vomitam.

Hugo Picado de Almeida

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Não pintar a Liberdade

Não sei já quem é que outro dia ouvi dizer que o que detestava no pintar das paredes lá de casa era o saber que o quarto se tornava mais pequeno a cada nova demão dada, sufocado pelas camadas de tinta que, em micro-escala, iam ocupando das paredes para o centro toda a divisão. E se a ideia pode parecer tola ou inocente, radical ou despicienda, ela parece-me sobretudo uma das coisas mais genuinamente poéticas que se pode dizer da Liberdade. Ah!, que bela homenagem lhe faria se ao menos me lembrasse de que indivíduo era esse para quem uma fracção de milímetro podia representar ameaça e prisão.

Hugo Picado de Almeida

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O facto de não haver título não deve impedir a publicação do texto

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Fotograma de Libre et Assoupi, de Benjamin Guedj (2013).

Ia começar por me penitenciar pelo aborrecimento que será para as três ou quatro pessoas que me lêem pela quantidade pouco razoável de vezes que tenho escrito a partir do cinema, mas creio que não chegarei a fazê-lo. O cinema e a literatura não são nada de especial senão pedaços do dia-a-dia como, digamos, momentos narrativos pouco diferentes, na verdade, de uma ida ao talho, de um copo entre amigos ou, tão simplesmente, do acto de deixar cair o corpo sobre a cama. A realidade e a ficção não são, bem vistas as coisas, dois pólos distintos. A ficção, no momento em que o é, é a própria realidade.

Só assim se pode ver, na sexta-feira, aquela cena do Annie Hall, do Woody Allen, em que o jovem Arvy, em pleno consultório psicológico, afirma que o que o preocupa e impede de fazer seja o que for — trabalhos de casa incluídos — é o facto do universo estar em expansão, com a inevitável promessa de um dia rebentar, ao que a mãe, com visível irritação e radical pragmatismo responde: «Mas o que é que tu tens a ver com o universo? Tu vives em Brooklyn. Brooklyn não está a expandir-se!», e, no domingo, se esteja diante do Libre et Assoupi, de Benjamin Guedj, onde Sébastien tem como objectivo de vida não fazer absolutamente nada. Talvez o pequeno Arvy, que vira comediante e sofre o desgosto da separação da Annie que dá o título ao filme possa também ele ser Sébastien, que nunca chega a apaixonar-se pela Anna do seu filme e que é confrontado com a impossibilidade de não fazer nada.

Mas não te preocupes, caro Arvy. O Sébastien acaba a vender camas de luxo, num negócio que parece próspero, e, mais importante do que isso, parece viver feliz com Valentine Caillou, sua paixão à primeira vista.

O cinema, tal como a vida de que faz parte, tem destes encontros.

Hugo Picado de Almeida

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«Não há aqui morte de Homem»

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Afonso da Maia (João Perry), à esquerda. Tom Seyr (Romain Duris), à direita.

Entre a adaptação d’Os Maias, por João Botelho, e o De Battre Mon Coeur s’est Arrêté, de Jacques Audiard, há um ponto de toque; uma mesma frase, a que diz Afonso da Maia, avô do desventurado protagonista, e a que diz Tom Seyr, personagem principal do filme francês: «Não há aqui morte de Homem.»

A mesma frase, com o mesmo sentido em ambos os filmes, para diminuir a relevância de uma situação trágica, mais trágica certamente n’Os Maias, já que o incesto será talvez sempre um pouco mais fracturante e inquietante do que um atraso para uma reunião de negócios, como acontece no filme de Audiard.

Afinal, a «morte de Homem» talvez seja a única verdadeira tragédia, e a capacidade de o dizermos a prova última do nosso forçosamente raro esclarecimento pontual. Não deixa de ser admirável e certamente não será mera coincidência que a frase assista Tom no momento da sua recuperação interior, da sua redenção moral. Afinal, talvez uns minutos antes a frase fosse impossível para ele. Ele, Tom, mais peculiar do que menos, menos amável do que mais, que, de radical e transviado agente imobiliário − cujo expediente se faz sobretudo de colocar ratos em prédios, expulsar ocupadores e partir vidros e soalhos flutuantes −, procura tornar-se num virtuoso pianista de concerto. Talvez seja que o Mundo, no final do filme, lhe corte as vazas e lhe mostre que as coisas não são tão simples assim e que a violência da vida possa querer mais, mas bom, Tom, que isso não te deixe mágoa nem murmúrio, nem te tolha as pernas. Bem vistas as coisas, «Não há aqui morte de Homem».

Hugo Picado de Almeida

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Ainda e sempre o Brel

jacques_brel

Não sei quantas vezes já aqui falei do Brel, mas todas quantas tenham sido foram ainda e sempre poucas para começar a fazer-lhe jus.

Tenho a certeza: a música do Brel pode salvar uma vida, pode curar um Homem de tudo. Aquela voz cheia, grave, cinemática, cinematográfica e teatral, tão perfeitamente protagonista no que se imagina um palco a preto e branco, os instrumentos etéreos, incomparáveis ao homem, apesar de belos. Fecho os olhos e a voz do Brel é tudo, prometendo que de Homens e incertezas e esperanças todos temos medida semelhante. Como dizia o Bukowski, «Estamos todos eivados de loucuras e fealdades várias das quais não nos apercebemos mas das quais toda a gente ao nosso redor se apercebe.» E o Brel vai entoando:

Quand’on a que l’amour
Pour unique raison
Pour unique chanson
Et unique secours

O texto dá o mote e a orquestra vai-se entusiasmando, enrubescendo, cavalgando a voz impetuosa do Brel, deixando-se enlear no sonoro poema, naquele premente abraço que as suas palavras prometem sempre, naquele calor de cigarros e cafés misturando-se com as vozes e o vapor e a vida enevoando a noite à cidade.

Quand’on a que l’amour
Pour tracer un chemin
Et forcer le destin
A chaque carrefour

A voz, muito humana e honesta, que poderia tão bem ser a nossa, circulando como a vida, entre a melancolia e a esperança, crescendo depois, heróica, até ao enfatuamento que, no fim da música, tanto pode resultar em concretização como passo último antes da fragmentação solipsista da insónia. Não o sabemos nunca.

Porque a música do Brel é da mesma matéria que se faz a vida. Ou talvez a vida seja da matéria que se faz a música do Brel, arriscar-se-ia dizer. O piano dança, enlaçado com a voz encorpada do belga, na intimidade que traz as cinturas próximas uma da outra, as bocas juntas.

Je creuserai la Terre jusqu’après ma mort,
Pour couvrir ton corps d’or et de lumière.
Je ferai un domaine où l’amour sera roi,
Où l’amour sera loi et tu seras reine.

Nada mais, nada menos. A inquietação do melhor humanista, os desejos do maior sonhador, as efabulações mais desmedidas e originais, mais apaixonadas ou mais iludidas, para o bem e para o mal. E os precisos mesmos medos que se podem fazer abismo.

Em três minutos da música do Brel cabe o Mundo, uma total compreensão da vida, das coisas dos Homens, um olhar tão esclarecido, sem nunca ser descomprometido ou distante, sobre quem vive e quem viveu, quem ama e quem amou. Em poucos acordes, num punhado de versos, um tratado sobre as relações humanas, em todos os seus tons e transposições, expostas no mais belo dos peitos nus, cartografia à flor da pele.

Hugo Picado de Almeida

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Balzac estava errado

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Composição a partir de 3 fotografias de Prokudin-Gorsky, feitas entre 1909 e 1911, na Rússia.

Balzac estava  errado. A fotografia não rouba o corpo, antes o constrói. Não apaga camadas, antes as adiciona. E preserva. É assim que as fotografias de Sergey Prokudin-Gorsky, nos primórdios da história da fotografia a cores, nos trazem hoje gentes que, de outro modo, teriam já perdido todas as suas camadas, deixado de habitar o planeta, no anónimo esquecimento que, mais tarde ou mais cedo, nos vence pelo cansaço. Gentes que, no que nos concerne, nunca teriam sequer chegado a existir.

Diz-se que as pessoas morrem duas vezes: uma quando morrem, de facto, e outra quando o último indivíduo que as conheceu diz o seu nome pela última vez. Mas talvez haja uma terceira forma de um Homem desaparecer: quando se destrói a sua última fotografia. O digital arrisca-se, por isso, a cumprir a promessa de nos tornar imortais.

Hugo Picado de Almeida

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Forjar um Vermeer

Fiquei hoje a conhecer a curiosa história de Han Van Meegeren, artista holandês famoso pelas suas reproduções de Vermeer e de De Hooch, entre outros, com as quais conseguiu cerca de 30 milhões de dólares no século XX.

A fantástica narrativa de Van Meegeren atinge o seu zénite em 1945, com a venda de um Vermeer ao número dois de Hitler, Hermann Göring, algo que ao holandês granjearia mais de 6 milhões de dólares e um julgamento por traição à pátria, após a guerra. Durante o julgamento, Van Meegeren viu-se então forçado a confessar que nunca vendera arte holandesa aos ocupadores nazis, e sim que com a própria mão a forjara — à época, as suas reproduções figuravam já em galerias e colecções privadas como obras autênticas dos mestres holandeses, altamente consideradas por críticos de arte.

“Christ and the Adultress”, quadro vendido a Göring como um Vermeer. (Van Meegeren, 1941-42)

O biógrafo do Marechal do Reich contaria mais tarde que, ao saber tratar-se de uma falsificação, Göring reagira como se pela primeira vez tivesse descoberto a maldade no mundo», o que não deixa de espantar tratando-se de um líder nazi. Para mim, esta será, de hoje em diante, a prova do poder da arte sobre os Homens. Göring suicidar-se-ia poucos dias depois, mais provavelmente para se furtar ao enforcamento a que fora condenado em Nuremberga, marcado para o dia seguinte, do que pelo desgosto de saber ter comprado um Vermeer que afinal nunca o fora. Mas creio que as maravilhas da história vivam destas curiosas conjugações.

Elas produzem sentido, é delas que se faz a narrativa, é por elas que o texto não é plano mas cordilheira. Assim como o facto de Van Meegeren se ter, ao invés de colaborador nazi, tornado um herói nacional holandês: afinal, foi graças às suas muitas falsificações, compradas com conhecimento de causa por vários coleccionadores holandeses, que parte significativa das obras dos “grandes mestres” que foram parar a mãos nazis eram, afinal, grandes obras de Van Meegeren.

Hugo Picado de Almeida

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