Música, Metro, Pessoas

Histórias a Metro #6

Entrou ontem no Metro, na carruagem que ao fim da tarde fiz minha, uma japonesa, pelo menos na ascendência. Vinha de sacola ao ombro e auscultadores nos ouvidos, expedita nos seus talvez trinta anos. Metida consigo, largou a despreocupada mala no chão, equilibrando-a junto ao poste no centro do vagão. Esperou que a carruagem se pusesse em marcha, encontrando o ritmo que mais lhe convinha, e quando esta atingiu o seu passo certo, ensaiou também a japonesa os seus passinhos de dança, que acompanhou com o cantar alegre do que me pareceu uma música remotamente conhecida.

E zás!, dir-se-ia que apanhou a carruagem desprevenida, ali entre o queixo e a bochecha, pintando-lhe o canto dos lábios num esborratado carmim. E logo uns quantos chamuscados olhares portugueses, que a crise tem sucedido em embaciar, a executaram com um tiro na cabeça e outro no peito, ali à queima-roupa, como se cantarolar no Metro fosse uma afronta mas o olhar da censura, de alto para baixo, ali a dois passos, fosse coisa perfeitamente natural. Ela, surpreendida pelos golpes de vista que notoriamente não esperara, envelopou-se novamente no silêncio e ali ficou, ainda que nos seus olhos se notasse que continuava presente naquele concerto que era só dela.

Deveria ter-me abeirado dela e dizer-lhe que continuasse a cantar.

Perdoem-me; este artigo parece-me pouco satisfatório. Se calhar teria sido melhor se concluísse que, um dia, talvez esta senhora rebente uma carruagem do Metro, ou pelo fogo exponha a carcaça carcomida de um qualquer autocarro por esta desfeita que no passado lhe fizeram. E aí todos nos condoeremos e contorceremos, exclamando que «era tão boa rapariga», «e sempre tão alegre!», e que «nunca se esperaria algo assim, de uma vizinha sempre tão prestável e bem-educada; via-se bem que era uma senhora», e «ó!, que bem que ela cantava…»

Ou talvez não falhe assim tanto os seus propósitos. Afinal, o Ary dos Santos era bem capaz de ter razão. Também «é preciso dizer das coisas o somenos que elas são.»

 

Hugo Picado de Almeida

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