Crise, Pensamentos

Pornografia e crise

D. H. Lawrence escreveu que «O problema da pornografia parece todo ele um problema de dissimulação. Sem dissimulação não chegaria a haver pornografia.»

A pornografia, como o autor inglês a entendia, é um discurso deformado pelo segredo a que é obrigado. E por se constituir como um contra-discurso, ela tende a caricaturizar-se, a exagerar-se para provocar o choque — ser mais do que seria para confrontar aqueles que a impedem de ser o que ela pretendia ser –, a tornar-se burlesca. Por isso D. H. Lawrence, que defendia o sexo, odiava e considerava de «fazer chorar» a pornografia degradante dos finais do século XIX/inícios do século XX.

Da mesma forma acontecem hoje as coisas com a verdade e a mentira. O problema da verdade é também ele um problema de dissimulação — isto parece óbvio. Nem sempre convém dizer a verdade, e por isso ela esconde-se. Esconde-se pela razão de que a querem matar. Esconde-se e desafia quem a quer reprimir, tornando-se violenta. O problema da verdade é que a verdade grotesca é a mentira. A verdade mais verdade do que a verdade já não é verdade alguma, mas uma mentira onde há restos de verdade agarrada às bordas do prato a aumentar o engodo, a verdade artesanal negociada num souk do hemisfério norte.

Assim como a pornografia mancha o sexo, a mentira mancha a verdade. A crise é isto.

 

Hugo Picado de Almeida

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