Pensamentos, Pessoas

Momentos de sabedoria fugaz

Uma coisa que os passeios de bicicleta têm de curioso é que só se apanham pedaços de conversas, quando se passa por outras pessoas. Um exercício interessante que gosto de fazer, e que faço já quase involuntariamente, é tentar pensar o que pode ter originado tal diálogo, o que significa, o que se poderá seguir-lhe, etc.

Ontem, por exemplo, passei por uma senhora  que seguia a pé a dizer à amiga: «A gaja é uma badalhoca. Só não lhe fui às trombas porque…» O instinto, ao ouvir alguém falar assim, diz-me que pedale mais depressa — não vá o indivíduo em questão decidir vir-me também “às trombas” (aqui, notavelmente, diferem os elefantes das pessoas, pois enquanto os primeiros só têm uma, as gentes parecem admitir duas). Porém, pensando melhor sobre o assunto, pessoas assim acabam por fazer-me sorrir, porque são essas pessoas que dão vida ao humor. Elas superam as caricaturas de que por vezes são vítimas, e isso é tarefa semanticamente muito complicada, como o dicionário o poderá atestar. Assim, mais do que personagens-tipo, estas são pessoas-tipo, o que não é para qualquer um.

Acabo a lembrar-me novamente de Baudrillard, que dizia que a realidade nos surpreende sempre, que a realidade resiste sempre mais do que a ficção e que vai sempre mais longe do que esta.

 

Hugo Picado de Almeida

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