Pensamentos

Sobre a opinião

A opinião é algo que todos podemos dar, é verdade, mas também é algo por que todos nos temos de responsabilizar. A opinião motiva diálogo e expõe-nos aos outros; não é uma flecha que se atira de olhos fechados para depois se correr na direcção contrária.

Ainda que todos possamos expressar a nossa opinião, convém evitar que nos desculpemos de seguida dizendo: «Mas é só a minha opinião.», como quem diz, no fundo, que gostos não se discutem. De facto, tanto as primeiras como os segundos devem ser discutidos. No acto de dizer «é só a minha opinião», ou pior, no acto de dizer «cada um tem direito à sua opinião», não se está senão a desvalorizar a opinião de cada um, tornando igual o pensamento mais brilhante e o patetismo mais vulgar. Depositando-se na opinião o valor do direito absoluto, esvazia-se de importância o seu conteúdo e furta-se-lhe, mesmo sem o querer, a necessidade de reflexão em que se deve alicerçá-la.

Na Era das Agências de Rating, seria de esperar que já soubéssemos compreender o valor e a natureza — e o perigos — das opiniões mal alicerçadas.

 

Hugo Picado de Almeida

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2 thoughts on “Sobre a opinião

  1. Uma coisa que eu sempre achei muito curioso no vosso jeito de falar foi começar ou finalizar as frases em “acho”. Nunca soube eu se “achar” é menos do que “pensar” ou “opinar”… Se calhar nós espanholes somos mais arrogantes, mas penso que a humildade não fica só nas palavras, mas na linguagem não verbal, na voz, no olhar, e no jeito de responder às outras opiniões… Na escrita é mais difícil isto, mas entendendo “falar com propriedade” sermos rigorosos e deixar sempre claro o nosso nível de conhecimento. Podes falar sem conhecimento, mas tens de deixá-lo claro para ficar mais receptivo aos argumentos dos outros e não ter vergonha da tua ignorância.

    Também há gente muito cínica que caminham pelas opiniões como equilibristas do circo e mudam cada dia. As sua credibilidade cai como a da nossa dívida soberana (512 pontos), e por mais talhante que é o nosso presidente no seu discurso, se cada dia faz o contrario do que ontem disse, qual é o seu valor?? As Agências de Rating são mesmo um jogo de especuladores e nunca acertam. Nenhuma pessoa com inteligência e sem ambição acredita nelas… Acho eu…

    • O “acho” que nós usamos muito tem o significado de “penso”, apesar de na verdade ser um sinónimo de “descobrir” ou “encontrar”. Não acho/penso que os espanhóis sejam mais arrogantes a falar; penso, sim, que nós, portugueses, somos muitas vezes excessivamente cordiais, às vezes se calhar falsamente, quando falamos. Temos muito medo das palavras, e o meu artigo era sobretudo sobre isso. O problema não é o “acho” em si. O problema dá-se quando, como tantas vezes acontece, usamos salvaguardas do género “isto é só a minha opinião” ou “todos têm direito à opinião”, como se assim disséssemos que toda a gente pode dizer o que quiser porque, afinal, é “só a sua opinião”.

      (Gostei do final provocador do teu comentário).

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