Literatura, Pensamentos

Rosa choque

Hilary Mantel, escritora e crítica britânica, dizia que, se bloqueado, um escritor devia afastar-se da secretária, dar um passeio, tomar um duche, cozinhar, ouvir música… De algum modo, é o que defendo: para escrever (ou criar qualquer outra coisa) bem é preciso ler muito, ver muito, passear muito, conhecer pessoas, falar com elas…

Com algumas dificuldades em fazer avançar os meus textos nos últimos dias, decidi então sair de casa — que apresenta por vezes demasiadas distracções, sobretudo, e não por acaso, nos momentos em que o trabalho não avança como esperado. O punctum, como diria Barthes, se o retrato da situação que aqui farei fosse realmente uma fotografia, estava noutro sítio: enquanto seguia no metro, sentada à esquerda do meu olhar, uma senhora larga segurava um cãozinho, e era para o cãozinho que eu não conseguia parar de olhar. Não era particularmente bonito, mas acontece que tinha vestido uma espécie de maillot rosa, um laço de seda roxo atado à cintura e, como se a imagem não fosse ainda grotesca o bastante, um colar de pérolas com um pendente cujo material e forma não consegui perceber muito bem.

Quando cheguei ao meu destino, a escrita correu particularmente bem, como há dias não sucedia, e o dia veio a revelar-se particularmente profícuo. Obrigado, Hilary Mantel. Tinhas razão. Todos precisamos de encontrar novas coisas, e talvez não haja nada mais novo, e chocante, do que um cão de maillot cor-de-rosa e colar de pérolas.

 

Hugo Picado de Almeida

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