Textos

Da simpatia policial

Rude-Coppers-by-Banksy

Rude Coppers (Banksy)

[8 de Março, 2015, 21h, Aeroporto de Lisboa]

Um gesto rápido com o dedo, ordenando que se baixasse o vidro.
Sem sequer o vislumbre de um minimamente cordial “boa noite”, o agente por detrás do volante dispara:

– O senhor não tinha já sido avisado lá em cima?
– Não. – o carro parara havia poucos segundos.
– Bom, se não foi, é avisado agora aqui. Da próxima vez são 30 euros. Toca a andar.

A razão de quem serve não deveria, ainda assim e num Estado de Direito, turbar à autoridade a noção de que, precisamente, está ao serviço de quem na rua encontra. Dir-se-ia que o respeito pela autoridade deveria ser gémeo do respeito pelo cidadão.

Hugo Picado de Almeida

Anúncios
Standard
Textos

Do óbvio

“Do que é que mais gostarias?”, o espelho devolvia-me a pergunta exactamente como eu a formulara. Outra coisa não seria de esperar.

Do que mais gostaria? Talvez de ser como os fáceis sem me importar com isso. De escrever como escrevem os fáceis sem aí sentir qualquer pudor. De olhar para um relógio e falar da espera, de olhar para uma árvore e falar da vida, de olhar para um pássaro e falar da liberdade, assim sem pensar duas vezes e sem ter a consciência de nada vir acrescentar ao leque das palavras ditas.

Escrever sobre aquilo que é óbvio para todos é afinal a receita certa para vender livros.

Hugo Picado de Almeida

Standard
Textos

Touch

IMG_20141102_162843
Há coisa de um ano passei uma mão-cheia de dias a escrever por Paris, sobretudo nas Tuilleries e nos Jardins do Luxemburgo — premonitória coincidência? — e pude, com tempo para ficar e absorver, sozinho para deambular, reparar em cantos e coisas que de todas as outras vezes deixara por descobrir. Algo que me ficou na memória foi uma parede de pedra picada pelas balas da libertação de Paris (25 de Agosto de 1944) e pelos estilhaços do bombardeamento da cidade (20 de Janeiro de 1918) no número 60 do Boulevard Saint-Michel.

Passei pela parede, li a placa identificativa, e segui adiante, apenas para me deter ao cabo de alguns metros. Senti a enorme vontade de tocar aquela parede que ali se dava como pedaço de história inadvertidamente fora de museu. Estava já atrasado para deixar o estúdio que alugara e apanhar o RER, e acabei por ficar ali, só, a meio do largo passeio, na tentativa de decidir se havia de refazer o caminho para tocar a parede. Acabei, na altura, por achar pateta arriscar perder comboio e avião para roçar as mãozinhas nuns blocos de pedra, mas sei hoje que lá devia ter voltado. Ao recordar a fotografia no telemóvel, arrastando os dedos sobre a imagem envidraçada, pareceu-me triste não o ter feito na aspereza da realidade.

Hugo Picado de Almeida

Standard
Textos

Uma Fogueira em Forma de Assim

livros fogueira

Por alguma benévola coincidência, quis o tempo e o acaso das leituras plantar-me nas mãos, nem vinte e quatro horas decorridas deste meu pequeno caligrama, ideias ecoantes nas páginas abertas como gargantas montanhosas do Uma Coisa em Forma de Assim, do Alexandre O’Neill, onde Maria Antónia Oliveira, sua editora, logo na segunda página do posfácio coloca na boca de O’Neill que “hoje lê-se muito, lê-se mal e depressa”, para de seguida dar o seu contributo, ao confessar que por vezes vai “a ponto de preferir o lixo da cozinha ao do escritório, especialmente antes de um jantar de esparguete e molho de tomate, ou aqueles momentos em que resolvo limpar o frigorífico de todos os tupperwares com resíduos alimentares duvidosos e restos bolorentos — que bem que ficam derramados em cima de certos livros.”

A mim, que sou dono de livros como de mais nada, custa-me ainda assim ver um livro ser desperdiçado, deitado fora, e talvez não me seja possível subscrever esta ideia em forma de assim, mas talvez preferisse que os maus livros não chegassem sequer a ser impressos. Evitava-se a fogueira, protegia-se o ambiente duas vezes, poupava-se tempo.

Hoje lê-se mal, mas se se lê mal, é porque se escreve pior, porque se edita pior, porque se quer vender pior.

 

Hugo Picado de Almeida

 

Standard
Textos

Sim, sou uma bandeira

card_belem_paris

Há quem critique as bandeiras francesas nas redes sociais, dizendo que, então, deveríamos igualmente usar a libanesa, a palestiniana, entre outras. Peço desculpa, mas não.

Importa que, em momentos como este, não cometamos o erro de querer ser mais solidários do que os outros, acabando por não ser nada que valha a pena designar. Acaso não colocariam todos bandeiras portuguesas no perfil se os atentados se dessem em Lisboa? Pessoalmente, Paris é-me mais próxima do que Beirute, e França mais cultural e emocionalmente familiar do que a Palestina. Mais do que isso: depois de Lisboa, Paris é a cidade com mais portugueses no Mundo. Mais do que o Porto, mais do que qualquer outra cidade em Portugal. Todas as vítimas são obviamente a lamentar e a respeitar, mas nos limites das possibilidades individuais, honramos as que mais próximas nos são. Na verdade, elas tornam-se símbolo que todas integra, e não excluem as demais — curiosa inversão: os que propalam as honras totais acabam por ser publicitários da divisão; os que se revelam contra as bandeiras são os que mais ferozmente as tomam pelo seu lado divisor.

Por tudo isto, e se lamento as vítimas dos extremismos em qualquer parte do Mundo, peço desculpa também, mas Paris e a França são para mim, para a minha cultura e para a minha história pessoal, mais do que sou do que Beirute. Pela mesma razão, as famílias enlutadas no Líbano reclamam para si a sua bandeira no Facebook: para elas, mais importantes são os seus filhos mortos do que os que perderam a vida nas ruas da Europa. E isso é apenas natural e compreensível.

Em momentos como este, é preciso ter cuidado e não apontar como hipocrisia a identificação maior que os outros sentem. Afinal, estamos todos a defender o mesmo, em luto pelas mesmas razões, e mais vale fazer um pouco do que acabar a não fazer nada. Cada um fará o seu luto à sua maneira, mas não devemos esquecer o que em jogo está aqui. As vítimas de um dos maiores atentados de que há memória na Europa merecem um pouco mais.

Hugo Picado de Almeida

Standard
Textos

Contigo, França

paris13

Hediondo. Repugnante. Execrável. Apenas algumas das palavras – arriscando passar por diminutivos – que podem começar a retratar este 13 de Novembro de 2015.

Seio da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, cidade do amor, Paris levanta-se hoje como ferida aberta no coração da Europa. O momento, agora, é o de estar com a França e com os franceses, e de não nos permitirmos esquecer que por detrás dos números havia rostos e vidas. Desejos e famílias. Pessoas como nós que inusitadamente foram expostas a um terror sem par e que espero que nunca mais ninguém chegue a conhecer. Que o facto do acontecimento nos chegar pelos títulos dos media no lugar de balas não nos permita sentar a assistir à distância. É também o momento para tomarmos consciência de que o ataque o foi sobre cada um de nós e dos nossos países. Sobre os que defendem a Paz, a Igualdade e a Tolerância. Sobre a nossa sociedade e o nosso modo de vida. Sobre a Liberdade.

Outras reflexões surgirão depois. No imediato, fica no amargo da boca a noção de que a violência é subvalorizada, quando talvez seja ela mais do que nada a gizar o nosso mundo, e quando é ela o principal desejo nascido da revolta enlutada que se sucede aos atentados. Sei bem o quanto custa a um pacifista como eu admiti-lo.

Hugo Picado de Almeida

Standard