Textos

A direita do outro lado do espelho

No famoso filme Goodbye, Lenine, um filho faz de tudo para que a mãe, recuperando após um coma, continue a acreditar que a União Soviética continua a existir.

Em 2015, em Portugal, sítio extraordinário onde as coisas sofrem sempre mirabolantes reviravoltas, PSD e CDS, pai e mãe de um país ainda em coma, fazem de tudo para nos fazer acreditar que afinal são eles próprios os paladinos da esquerda, os legítimos representantes do povo, os salvadores da nação — ainda que, segundo os próprios, o saldo destes quatro anos fosse mais positivo antes das eleições do que no minuto posterior –, numa inversão inesperada que só a confusão pânica do actual Governo pode começar a explicar.

Não digamos, porém, que a coligação de direita é um pântano de mentiras, se nos basta afinal dizer que é um charco de contradições.

Passos fala em revanchismo dos partidos de Esquerda, mas abandona o púlpito no seu último discurso enquanto Primeiro-Ministro dizendo que não contarão com PSD ou CDS para aprovar nenhuma medida. Percebo agora o que este mesmo Governo entendia pelo “sentido de Estado” e a “responsabilidade democrática” que pedia ao PS na anterior legislatura.

Já Luís Montenegro, para não ficar atrás na oralidade disparatada que um dia lhe poderá abrir as portas de um futuro executivo, fala no derrube do “Governo do Povo”, algo que creio que a direita nunca se tinha lembrado de reclamar para si, tanto ou mais interessante quando se constata que 124 deputados serão sempre mais deputados do que 104, por muito que isso custe a calcular. Sempre se soube que Passos Coelho e Paulo Portas não falam a mesma língua da Democracia e da Constituição, mas não deixa de ser uma bizarria que olhem para uma maioria parlamentar e que consigam apelidá-la de “golpe de Estado”.

Idiossincrasias de um Portugal de fanáticos em pânico, como só isso poderia permitir a Paulo Portas dizer que “há portugueses que gostariam de ver os seus votos respeitados”, de onde se deduz que há direitos que valem apenas para os portugueses que votaram na coligação de direita, certamente portugueses de outro calibre. Portugueses, isto é, cujo voto valerá certamente mais do que o dos restantes. Os outros portugueses, aqueles eleitores que votaram na coligação de esquerda, e que por sinal acabaram por constituir a maioria, são um género diferente e muito particular de eleitores — entenda-se, eleitores cujo voto não deve ser respeitado.

Começássemos agora a respeitar maiorias e sabe-se lá onde é que isto poderia parar. Corria-se o sério risco da emigração disparar, do desemprego subir, de empobrecermos as famílias e falirmos as empresas. Felizmente que nos escapámos a tão triste sorte nos últimos quatro anos.

Hugo Picado de Almeida

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