Livros, Pensamentos, Pessoas

Arqueologia num livro usado

Escrevi, há tempos, sobre O que há dentro de um livro usado?, defendendo que nele há não apenas a história impressa — aquela que o escritor escreveu e que o editor imprimiu –, mas também aquela de que o leitor o impregnou, de forma mais ou menos invisível.

Dessa vez, notava uma certidão de casamento que encontrara presa entre as páginas de um livro de Jean Villar, De la tradition théâtrale. Desta vez, encontrei num livro de Santos Fernando, escritor português que me era desconhecido mas cujo non-sense e os maneirismos do seu discurso me captaram de imediato, intitulado Consolação Número Três, o postal antigo (ao lado), com indicação no verso de ter sido impresso em França, com um código de Paris.

Ainda não comecei a ler o livro e ele já me atiça com uma história, essa que me apetece preencher sobre o anterior dono do livro, de como este postal lhe foi parar às mãos, saber porquê, saber se o próprio livro de Santos Fernando terá percorrido as ruas de Paris…

Os livros antigos têm algo que os novos, na prateleira das livrarias, não têm. Estes segundos são iguais uns aos outros; os antigos, não, porque os antigos escondem memórias diferentes.

 

Hugo Picado de Almeida

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4 thoughts on “Arqueologia num livro usado

  1. Muito bom o seu texto. Denota um espírito sensível e empenhado na literatura. Conheci bastante bem esse escritor admirável que era o Santos Fernando, amigo e vizinho em Lisboa, isso há muitos e muitos anos antes de eu vir viver para Paris há 42 anos e ele ter ido viver para o Brasil Ando a tentar reunir elementos para seguir a pista e formar uma biografia do Santos Fernando e até agora nada consegui. Se por acaso tiver informações agradeceria se lhe for possível, de me transmitir. luiz@darocha.eu.
    Bem haja,
    Z.L. Darocha

    • Caro Z.L. Darocha,
      Agradeço as suas palavras e o facto primeiro de me ter contactado. Muito me alegra saber desse seu contacto próximo com o escritor Santos Fernando, e saber que está empenhado em escrever-lhe a biografia. Infelizmente, este livro dele que comprei, o Consolação Número Três, foi o primeiro contacto que tive com a obra dele. Não o conhecia até então, com muita pena minha, pelo que penso não ser capaz de lhe oferecer grande ajuda… Em todo o caso, se vier a descobrir algo, certamente lho direi.

      Cumprimentos,
      Hugo Picado de Almeida.

      • Caro Hugo Picado de Almeida,
        Muito obrigado pela sua atenção delicada em me responder. De facto consigo lavrar algumas informações via Brasil e por enquanto nada consegui com Portugal. A verdade é que vivendo em Paris e como se tornou cada vez mais raro dislocar-me a Portugal, a tarefa anuncia-se difícil, sendo que os portugueses salvo raríssimas exeções não dão seguimento a pesquisas. Talvez por andarem sempre ocupados a choramingar sobre a fatalidade de um passado glorioso que por encantos malfadados se transformou em nevoeiros e crise aguda económica que pesa sobre a crise crónica dos lamentos. Mas estraviei-me.
        recebi hoje nota de leitura sua e é com agrado que me instruio, lendo-o. Acaso esteja mesmo interessado nas leituras de Santos Fernando, creio que tenho na minha Biblioteca um ou dois livros em duplo, pois eles foram dedicados pelo autor ao meu pai e outros a mim próprio.
        Os meus melhores cumprimentos,
        Z.L. Darocha

        • Caro Z. L. Darocha,
          Antes de mais, alegra-me muito saber que tem lido os meus escritos aqui e que, com julgo pelas suas palavras, estes lhe têm agradado.
          Quanto às suas pesquisas, dentro daquilo que me for possível, ponho-me à sua disposição para o ajudar aqui em Portugal. Por e-mail enviar-lhe-ei o meu contacto para melhor podermos falar.
          Confesso que ainda não terminei a leitura do «Consolação Número Três», mas o livro agrada-me extraordinariamente. O Santos Fernando é de uma genialidade invulgar. Em todo o caso, e agradecendo muito a sua simpatia, não lhe posso pedir que me empreste os seus exemplares, ainda que em duplo, sobretudo dada a distância, e por se tratarem de exemplares com dedicatória do autor. Tratá-los-ia da melhor forma, mas teria receio de que se pudessem extraviar na viagem ou ser alvo de algum outro imprevisto. Ainda assim, sendo estes livros bastante difíceis de encontrar, se por acaso tiver contacto com outros exemplares dele, ou conhecer alguém que os tenha, muito agradeceria se me indicasse, a fim de eu os poder adquirir.
          Obrigado.
          Com os melhores cumprimentos,
          Hugo Picado de Almeida.

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