Textos

Silêncios

Quando há uma pausa numa conversa e o silêncio se instala entre todos, os russos dizem: «nasceu um polícia».

Este é, talvez, sentimento partilhado por todos os povos que experimentaram regimes totalitários; não importa a cor ou as coordenadas dos seus carcereiros. E isso não será desavisado, ainda que o silêncio também seja, as mais das vezes, muito esclarecedor. Ele diz sempre mais do que aquilo que se diz, porque o silêncio diz tudo o que não se pode dizer. Claro que é preciso considerar a possibilidade de haver também muito que não possa dizer-se. O perigo do silêncio, afinal, é de dizer o que quer e o que não quer.

O sentimento russo é curioso, mas não me parece que muito polícia seja capaz de descortinar todas as possibilidades que aqui se jogam. Todo o interrogatório procura uma coisa e uma coisa só: destruir o silêncio com que não sabe lidar.

Hugo Picado de Almeida

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