Textos

Fuga e refúgio

O Coltrane está para ali a tocar a Stardust, a seu ritmo e sem que ninguém o possa apressar, nem mesmo a minha perna inquieta que martela o chão num nervosismo sem pátria. Toca ele como quem passeia, sereno, sem se esvair na pressa de tudo conquistar, maduro, paciente, sem a impulsividade de quem deseja pelo próprio prazer de desejar a que se entrega e do qual não quer escapar.

Vai tocando há já coisa de cinco minutos — o saxofone adormeceu, abandonando-se como quem sofre, segredando suspiros, enquanto o piano lhe vela o sono, adocicando-se em recordações imaginadas, memórias futuras, hipóteses — que talvez nunca concretizará — em melodiosa narrativa, e a bateria continua a fazer a contabilidade dos segundos obstinados, encurralados, como pensamentos angustiados, nos dias que vão morrendo uns atrás dos outros.

Não há nele procura nem fuga, apenas calma certeza, entretenimento deambulatório. Não se inquieta, como eu. Não se refugia em nada nem mesmo procura. Refúgio e procura? Fuga e refúgio? Haverá entre eles diferença? Estará ela no movimento e na sua ausência? Ou na permanência? Na duração? Ou no sítio onde se procura refúgio? Pode esse sítio ser a procura que se encontra? Talvez refugiar-se seja o fim da fuga. Mas não pode a fuga ser fim em si mesmo e não terminar nunca?

Hugo Picado de Almeida

Anúncios
Standard

Escrever um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s