Crise, Pensamentos, Política

Ser livre

Dizia o Mário de Carvalho, no domingo, no Câmara Clara, que para governar é preciso ser-se um Homem livre. E depois acrescentava que os nossos governantes não são livres, pois têm negócios e, pior, «negociatas» que influenciam uma grande parte das suas medidas e decisões. Não são livres, mas reféns de bancos e grandes empresas, esses e essas para onde vão A.G. e D.G. — antes e depois de Governo, claro –, como se de um felicíssimo milagre se tratasse, como paralíticos subitamente elevados sobre andas.

Diz o Ricardo Araújo Pereira — numa das melhores frases sobre a situação que vivemos — que, «se isto é o resgate, eu preferia o sequestro». Percebemos, porém, que afinal se trata mesmo de um resgate, e os seus agentes assim lhe chamam sem qualquer vergonha. Há, efectivamente, gente a ser resgatada. Os felizes cativos no Governo, em grande parte da Assembleia, nos bancos… E nós, os 99%, servimos de moeda de troca, como o polícia que se oferece ao sequestrador para que se concretize a libertação dos reféns civis. No nosso guião sucede apenas que as posições se inverteram. Mas por que deveria isso espantar-nos? Já é assim com tanta coisa… E, bem olhada a história, sempre foi o povo quem representou a democracia em momentos conturbados. Isso da democracia representativa é só uma forma de esconder o facto de já não estarmos perante uma democracia, um mero eufemismo, a ilusão semântica, assim como os impostos deslizaram para o assalto mas não perderam o nome, assim como o Estado Social é uma imagem sem nada por trás, e também, enfim, como o dizia Baudrillard, como o direito de voto se transformou em dever.

Não, não somos, de todo, livres. Estamos, talvez, presos por arames, agarrados a imagens, amarrados a bandeiras que já não se suportam em mais do que na própria crença que têm da sua existência. Oportunamente, li na semana passada uma frase de Charles Bukowski, que dizia estar convencido de que nunca chegámos a abolir a escravatura, e que tratámos apenas de a alargar a todas as cores de pele.

 

Hugo Picado de Almeida

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