Ficções, Pensamentos, Política

Sou ministeriável

Chove, e a cidade cheira-me a cão molhado.

Nos últimos dias, assim tem sido. Claro que esta ficção me desconsola, não tanto pelas circunstâncias olfactivas, mas sobretudo pelas consequências lógicas que dela decorrem. Imaginei, então, que, se a cidade é um cão, não nos restará senão ser pulgas, trincando e assestando os beiços sobre a pele do nosso fiel amigo. E tenho medo.

Tenho medo pois chego, por conseguinte, à desgostosa conclusão de que sou, eu próprio, ministeriável. Afinal, pareço dividir a vida entre aqueles que enterram o dente na carne dos outros e aqueles onde o dente é enfiado. E afinal, a economia como a temos hoje, bem resumida, não passa disso mesmo.

Talvez Gregor Samsa também tenha, uns dias antes daqueles que o tornaram famoso, cheirado esse cheiro de cão molhado nas ruas da sua cidade. E vejam bem o que lhe aconteceu. Como um dia escreveu o Manuel Jorge Marmelo, «Certa manhã, ao acordar dos seus húmidos sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, muito transpirado e transformado num insecto repelente e monstruoso: um ministro do XIX Governo Constitucional.»

 

Hugo Picado de Almeida

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