Pensamentos

Inquietação

[texto escrito em data anterior]

O que é que fiz hoje, afinal?

Trabalhei, ganhei o meu salário, mas o que é que fiz verdadeiramente? É certo que li um pouco de Sartre, que aprendi sucintamente sobre a forma como as alterações climáticas têm influenciado a espécie humana já desde há doze e há cinco mil anos, do Estreito do Bósforo à Gronelândia, respectivamente, e que assisti na Gulbenkian à apresentação de um fragmento de tecido persa, do período safávida, representando Alexandre, o Grande, peça oferecida a Calouste Gulbenkian por um arménio cujo nome não fixei.

Mas será que isso chega? Poderá isso legitimar a noite de modorra e a sesta que acometeu contra mim no sofá? Pode isso valer, de facto, para justificar o passar de um dia? Não posso deixar de sentir que não fiz o suficiente, que não fiz o mais devido, e que o dia passou sem se assinalar no calendário, sem que – se não escrevesse este texto, e mesmo escrevendo-o – nada o fixe na minha memória daqui por alguns tempos. Parece-me, de algum modo, que o término do dia anterior se colou ao princípio do dia seguinte, e que este de que falamos passou sem ter chegado a passar. Imagino isto como se às rodas dentadas do relógio faltasse um dente, permitindo o saltar de uma porção de tempo, anulando um pedaço do espaço, e pior, anulando sequer a consciência de tudo isso.

Por tudo isto, talvez não fosse má política os dias terminarem apenas quando lhes déssemos ordem para tal.

 

Hugo Picado de Almeida

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