Ciência

As maçãs caem sempre para baixo

Um destes dias à noite, ao ouvir no canal de História a teoria de que o Sol poderá ter uma estrela gémea maléfica, Némesis, também conhecida por «estrela negra» pela quase ausência do seu brilho, senti-me a ser evangelizado.

De acordo com alguns astrónomos, esta será a explicação para que, de 26 em 26 milhões de anos, extinções em massa ocorram na Terra, então banhada por uma chuva de asteróides durante um milhão de anos por razões curiosas e plenas de sentido, mas que aqui não terão eco. De facto, acreditar na astronomia teórica, com tudo o que isso tem de fascinante e com todo o seu sentido físico, não anda longe da crença religiosa.

Lembrei-me, então, de uma conferência genial a que assisti há coisa de dois meses, pelo Professor Ian Angell. Dizia ele, apresentando as ideias do seu recente livro Science’s First Mistake (escrito com Dionysios Demetis), que no mundo não existe causalidade; apenas na mente humana. A proposta de Angell é pelo próprio brilhante e atraentemente condensada: «A maçã de Newton não caiu por causa da gravidade; caiu porque é isso que as maçãs fazem.»

A teoria de Angell é que o mundo não é senão aquilo que é, e que só tem explicações na mente humana. O que acontece aconteceria simplesmente, sem que a ciência tenha mão nisso, sem que aconteça pelas explicações e conceitos que ela nos dá. De facto, tudo poderá ser ilusão e mentira, pois tudo é nosso produto ficcional: tudo é caracterizado e categorizado de acordo com a nossa tomada de vista. Em boa verdade, não compreendemos nada, diz-nos Angell na esteira de John von Neumann: não compreendemos nada, apenas descrevemos e nos habituamos às coisas tal como as vemos. A teoria pode até ir mais longe, e aqui encontra o seu corolário: uma grande percentagem dos elementos que permitem explicações à química e à física são hipótéticos, a começar pelo Bosão de Higgs, pai ou padrasto de grande parte da nossa explicação para o funcionamento do mundo.

Resumindo e, talvez, complicando, todo o conhecimento é ilusório. Tudo aquilo que aprendemos sobre os fenómenos do mundo não é conhecimento sobre o mundo, mas conhecimento sobre o conhecimento, isto é, conhecimento sobre a nossa forma de lidar com o mundo. Afinal, «as leis da Natureza estão apenas na nossa cabeça», diz Ian Angell, mas, bem vistas as coisas, «as teses desta conferência também», e é o próprio que o afirma.

Ian Angell, porém, não deixa de avisar que nada tem contra a ciência, pois ela é a ferramenta mais útil que fomos capazes de divisar para acedermos ao mundo e o assimilarmos, para lidarmos eficazmente com os nossos problemas e incertezas. É também por isso que não mudo de canal e fico a ouvir e a convencer-me sobre o sentido que faz existir uma gémea maléfica do Sol, e como pode a sua existência nos moldes em que acreditamos que ela exista explicar as extinções em massa na nossa Terra.

Como diz o meu amigo Adalberto, «quando estiver numa cama de hospital, quero um médico que não saiba nada de filosofia».

 

Hugo Picado de Almeida

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