Crise, Cultura, Política

Europa, Turopa, Eleropa

Sou um europeísta convicto. Isso significa que não sou meio-europeísta, semi-europeísta ou a-modos-que-europeísta.

Significa também, por arrasto, que não posso olhar para aquilo em que a Europa se tornou sem desgosto, e menos ainda para aquilo em que a Europa ameaça tornar-se. O problema da Europa é ter ficado a meio, ter feito aquilo que não era difícil e com que todas as pessoas minimamente providas de inteligência e humanidade poderiam concordar. É certo que muitas coisas foram feitas — e muito bem feitas –, mas não houve coragem para levar o projecto por diante. Uma União Europeia que não caminhe para uns Estados Unidos da Europa é coisa sem sentido, porque não é nada senão uma massa informe, a meio caminho entre o tudo e o nada, coisa que se alia quando tudo está bem e se divide quando tudo corre mal; como os países sozinhos, de resto. O que falta à União Europeia será, talvez, maturidade e melhor consciência de si e do que se passa no seu interior.

Os Estados Unidos da Europa só não avançaram, em última instância, porque a Europa vive ainda à sombra das suas guerras e dos seus fantasmas, e porque os seus Estados vivem no pânico da perda da soberania. E o pânico tolda-lhes de tal forma a visão que não são capazes de ver — nem sequer levantam já a voz — que a liderança singular que temem nos Estados Unidos da Europa, onde o processo seria regulado e onde as eleições o legitimariam, é aquilo que têm hoje, em versão ilegal, na União Europeia, onde a Alemanha ignora todas as fracas instituições europeias e se faz senhoria do prédio, desejo que sempre alimentou. E nenhum inquilino a contesta — mas que não se fale no federalismo, isso não!

Hoje, porém, não é de todo o tempo para o federalismo, mas é hoje que a Comissão Europeia vem resgatá-lo, como se tal fosse ainda remotamente possível. Quando era talvez mais fácil, não o fizeram. Hoje, cercados pela crise, com os países uns contra os outros, sucedendo-se as declarações mais anti-europeístas e em total desrespeito pelos princípios fundadores da União, com a cooperação a um pequeno acontecimento de se extinguir em cinzas, e o respeito também, parece-lhes esse o momento ideal para reunir todos os cidadãos da Europa sob um mesmo tecto?

A desilusão da Europa é, no fundo, a desilusão do Humanismo e a derrota do Homem. Algo de tão bonito caiu-nos aos pés, estrangulado pelas mãos do liberalismo cego e da ganância, nas quais nos depositámos. Enquanto os sistemas económicos se sobrepuserem aos sociais, enquanto preferirmos abdicar daquilo que de bom construímos por aquilo que mais brilhantemente nos destruirá, estaremos a escolher a animosidade e a vertigem das guerras.

 

Hugo Picado de Almeida

Luís Afonso, «Bartoon» no Público de 14 de Dezembro de 2012. Formato adaptado.

Luís Afonso, «Bartoon» no Público de 14 de Dezembro de 2012. Formato adaptado.

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