Textos

Pour Mouscou par Orient Express

Fotograma do videoclip de Packshot, de La Femme.

Fotograma do videoclip de Packshot, de La Femme.

Encantam-me os imponderáveis que nos levam de um livro ao outro, de uma música à seguinte, e o ocasional poético diálogo que encetam, insuspeito, inadvertido, inusitado.

Como, por exemplo, poder ouvir a Packshot, dos franceses La Femme, que se inicia nesse hall de gare de uma estação sem nome, da mesma forma que uns dias depois se começa a ler o Austerlitz de W.G.Sebald, e que igualmente arranca na estação central de Antuérpia, olhando a enorme cúpula sobre a sala de espera e a magnífica estrutura de ferro e vidro que acolhe as longilíneas plataformas onde resfolegam os comboios. De alguma forma, são as linhas de comboio que conduzem uma história e outra, a da música e a do livro, passando de Antuérpia a Londres e ao País de Gales, a Paris e a Moscovo, em linhas aparentemente descosidas, de pontos falhados, perdidos e saltados pela agulha que cose os comboios e os seus destinos uns aos outros: ta route, étape après étape.

Há num e noutro — música e livro — o mesmo tom desesperado de uma amargura sem rosto, de uma violência sem remetente ou destinatário, de uma vingança sem porquê; o inatingível peso de um crime e uma sensação de culpa nos passos dados sobre a gravilha que segura os carris. Talvez o que partilhem seja afinal a náusea do mergulho no fumo dos comboios, da vertigem narrativa e dos túneis sucedendo-se, de um retour en vitesse, ultime direction que t’emmène au nord para um sítio onde as coisas possam até ter-se tornado o seu inverso: como no livro de Sebald, uma tentativa de reconstruir os passos e espaços de uma história colectiva tão incompreensível como a desse labiríntico Roland M, assassino e vítima, cantado na Packshot.

Ainda não cheguei a meio do Austerlitz — que no livro é um homem, mas como se tudo não bastasse, é também nome dessa famosa gare de comboios parisiense —, mas o que é óbvio desde início é essa atmosfera nocturna, ou dos dias de pouca saturação, resvés preto e branco, que também os La Femme usam no seu vídeo, enquanto cantam, por entre um obsessivo psicadelismo: Tu vois le jour dans le noir, Tu vois le jour dans le noir.

Hugo Picado de Almeida

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