Pensamentos

O blog e o celacanto

Tenho tido um sonho recorrente.

Invariavelmente, o blog ganha pernas e larga a correr, repleto dessa felicidade que há-de animar os seres subitamente dotados de membros que concedam a habilidade da locomoção, e foge-me pela porta de casa, pela janela do computador, sem que eu consiga agarrá-lo. Sem que eu, aliás, consiga esboçar sequer um passo, como se cimentado num bloco ao jeito da Camorra que actua nos filmes. Acordo nadando entre suores profundos, esses onde o celacanto da África do Sul andará escondido, agora que os jornais noticiaram que os cientistas seguem no seu encalço.

De facto, tenho permitido que o blog vogue e vagueie há tempo demais, feito celacanto no lado em eclipse da internet. A comparação falha porque o peixe-fóssil-que-afinal-vive se oculta por saber que nas profundezas está bem melhor; porque sabe que a alternativa é ser escamado, escalado e fervido em soluções de diferentes teores, entre o Carbono-14 e o escabeche, na bancada de um laboratório. O blog, porém, habita os silêncios da rede porque este pescador lhe cortou a linha. E às palavras ninguém as vem procurar, de sonar e submarino e tudo.

Dá-me menos trabalho o celacanto do que o blog, mas só o segundo me interessa verdadeiramente. É altura de voltar a pegar na linha e esperar que ela, como normalmente as linhas de boas folhas fazem, traga as suas palavras por arrasto.

Hugo Picado de Almeida

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