Pensamentos, Viagens

Escritos de Nova Iorque #2


Divine Ricochet, John Chamberlain (1991). Painted and chromium-plated steel and stainless steel, 138.4 × 180.5 × 169 cm. Private collection, Dusseldorf, courtesy Galerie Karsten Greve, St. Moritz/Paris/Cologne. © 2012 John Chamberlain/Artists Rights Society (ARS), New York. Photo courtesy Galerie Karsten Greve, Cologne (via http://web.guggenheim.org)

A exposição Choices, de John Chamberlain, patente no Guggenheim Museum de Nova Iorque, não poderia ser senão de um americano, e talvez não pudesse sequer estar exposta num país que não fossem os Estados Unidos da América. É que a exposição de Chamberlain tem em si toda a América. Nas pilhas de metal retorcido, pára-choques amolgados, carroçaria automóvel distorcida, não está senão o símbolo maior da cultura americana: o carro. Mais do que isso: o carro destruído; esse é o verdadeiro símbolo. Só o carro destruído é testemunho da velocidade, do excesso, do gasto, da vida que se torna morte – do efémero. O carro clássico – vintage −, coleccionável, quer recuperar um tempo que se tornou impossível; o carro destruído é sempre actual, e o carro clássico destruído faz sempre sentido, pois legitima o progresso das épocas por vir: inscreve-se no tempo e no mundo sem provocar qualquer choque ou ruptura com o presente.

Podemos ir mais longe: o arquétipo ideal do carro talvez seja, na verdade, o carro destruído, pois é esse o destino mais próximo ou longínquo de qualquer automóvel. Mas se Chamberlain o pode ter percebido, Chamberlain também era americano, e com o seu trabalho, no qual podemos ver a compreensão do papel do carro como símbolo da sua cultura, encontramos também as marcas do povo a que pertence. Tornando explícito que o carro é efémero, pela sua destrutibilidade, Chamberlain, ao apresentá-lo como arte, mostrou também como ele pode − reaproximando-o inevitavelmente do carro vintage inteiro e mantido a funcionar − ser coleccionável e, por isso, permanente, memorável.

Esse será, no fim, o grande desejo dos povos sem História, como os EUA: converter tudo em monumento, tornar tudo passado para assim atenuarem o facto de nada terem de seu para preservar, e de nada poder existir durante tanto tempo que possa perturbar o necessário e permanente impulso produtivo de novos produtos que consumir.

 

Hugo Picado de Almeida

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