Textos

Unterwegs

Rooms by the Sea, de Edward Hopper, 1951.

Rooms by the Sea, de Edward Hopper, 1951.

Porque há dias que acabam a meio
Pela ânsia de se fazerem manhã
E horas que passam vagas como corredores,
Torpes, tolhidas numa esperança vã
De que aos olhos se possa fechá-los para dar corda ao relógio.
De que se possa, enfim, dormir sem sono,
Da noite desembocando na cratera do dia
Numa esteira de sonhos despidos −
O entendimento no suor fresco à flor da pele nua
− Como que um nascimento de abandono.
Creio que gostava de que a noite não fosse despedida
Tanto quanto sonho que a manhã não se mostre despida
Por estar vazia a cama,
E o ar, das palavras que trocamos.
Que o Sol que varre o quarto possa não te encontrar aqui
Sinto-o como ébria desilusão na sobriedade do dia
Que se faz com a certeza contratual, formal, em letra de elegia
De que lá atrás o que foi se pode agora esfumar
Como se os cigarros nunca ardessem antes de ser cinza.
Como pode o Sol, afinal, em desequilíbrio, protagonizar essa acrobacia
De misturar a promessa, o palco, o real e a página vazia
Com a facilidade dos lençóis que se me enrodilham
Nas pernas, sem saber se se animam a matar-me por asfixia
Ou se é a paixão que os excita.

Porque há dias que acabam a meio
E que não é a manhã quem os anuncia.

Hugo Picado de Almeida

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