Textos

Um russo em Paris

Avenue-des-Champs-Elysées
Um dia aconteceu-me encontrar em Paris, ali onde os Champs Élysées abandonam as lojas de marca para entrarem nos jardins que escondem o Petit e o Grand Palais, junto ao metro de Roosevelt, um russo com ar de guarda-costas da máfia. Andaria talvez a Organizatsiya às compras na Louis Vuitton ou na Cartier, e o indivíduo aproveitando o Setembro tranquilo em Paris para tomar algum sol numa indubitavelmente merecida folga sem armas nem olhares desses que obrigam à torção do pescoço. Tinha o ar gasto e a pele áspera de quem pode ter passado pela metalurgia soviética ou pela cocaína — a que tiver vindo primeiro –, e de quem certamente assistiu ao desmoronar da União com uma arma no cinto e um sorriso matreiro nos lábios segurando-lhe um cigarro. O cabelo raro, eriçado e grisalho, e os olhos uralianos confiavam-lhe esse ar de quem monta uma Kalashnikov em dez segundos e de quem consegue fazer um homem falar por qualquer meio, se o dia assim lho exigir. Vestia um fato preto sobre uma camisola interior igual, começando a desbotar, como se ela própria curasse ainda a ressaca da noite anterior e as manchas sobre a gola pudessem ser de vodka. O sotaque carregava-lhe o inglês, o relógio grande, metálico no pulso impunha-se à vista pelo contraste, e a voz rouca identificava aquele volume opaco no bolso do casaco como um maço de tabaco.

Aproximou-se devagar, como só faz quem sabe o ofício que oculta, e sentou-se ao meu lado num banco sob as árvores, tentando adivinhar a minha nacionalidade. Depois do pequeno “Quem é Quem” quis saber o que achava eu de Paris, para de imediato alvitrar que Paris, Londres e Amesterdão eram bonitas, sim, mas que lhe mereciam uma mão trémula, denotando moderação no prazer que ali sentia. Nova Iorque, isso sim!, era para ele a razão de lhe brilharem os olhos azuis. “Grandes festas! Mulheres bonitas e a noite!”, exclamações ditas com o olhar glacial subitamente tornado quente e as papilas gustativas adivinhando-se num mar de saliva ansiosa, procurando um aceno cúmplice.

Breve como foi, toda a cena pareceu demasiado cinematográfica, como se plano clandestinamente inserido no filme; cena impossível, no fundo, como impossível também o facto de se poder estar em Paris, num dia de sol ameno como aquele, bom para os longos passeios sob o ar leve da cidade, ambicionando estar noutro sítio qualquer.

Hugo Picado de Almeida

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