Textos

Por que escrevo?

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Tenho na estante um pequenino livro do Orwell, bonita edição como em regra são as da Penguin, que se intitula Why I Write. Já ali está há vários anos, na mesma prateleira, mas por razões mais ou menos claras, ou por razão nenhuma — o que é, na verdade, o mesmo –, creio que não cheguei a passar-lhe da primeira página. Reparei nele ontem, por acaso, como a um amigo que se encontra na rua, e encaixei a pergunta. Por que escrevo?

Posto que está que a literatura não há-de salvar nada nem, provável e tragicamente, vir a fazer algo pela Humanidade, deve restar-me uma razão bem egoísta para o fazer. A fama não é, pois, a julgar pelos nossos reality shows, o século é dos cantores e dos cozinheiros. Vaidade ou luxúria também não serão; creio que já uma personagem minha disse que isso das mulheres se apaixonarem pelos escritores é chão que já nem uvas se lembra de ter chegado a dar. O dinheiro é a talvez a carta que mais fora do baralho está; além do mais, ulteriormente prefiro que me leiam do que me paguem para fazê-lo. Resta-me, creio eu, o louco, puro prazer de ver o que pode surgir do contacto de uma caneta com um pedaço de papel, que de todo não é a tinta, e de me divertir manipulando uma das mais antigas e poderosas ferramentas da espécie.

Na verdade, sempre soube que não me interessa tanto contar histórias, mas sobretudo explorar o que pode ser dito. Creio, sim, que é essa a minha razão: um pueril desejo de mexer com as mãos.

Hugo Picado de Almeida

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