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Brace! Brace!

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Andar de avião, essa muito pouco humana actividade de voar, encerra em si o derradeiro sinal do humanismo, último reduto da noção da espécie. Os procedimentos de segurança de um avião são a última marca, na nossa sociedade, da nossa condição mortal, mas também um dos últimos testemunhos da consciência do outro.

Quase tudo, no nosso dia-a-dia, tem o potencial para nos matar, mas só o avião confessa poder vir a fazê-lo. Há nisso uma certa ternura.

E se qualquer um de nós saberia já recitar as instruções de segurança da aeronave, há sempre um silêncio ritual enquanto a tripulação executa a sua cuidada coreografia. E é esse um respeito merecido por aquele grupo de desconhecidos que tanto aparenta preocupar-se com a nossa vida. Para mim, chega a ser enternecedor ver-lhes o empenho, tanto mais quanto inocentes se me afiguram as instruções.

De algum modo, cheira-me que enfiar a cabeça nos joelhos não fará propriamente diferença na hora em que oitenta mil toneladas de metal e combustível se espetarem no chão a mais de oitocentos quilómetros por hora, mas é das coisas mais bonitas da vida, isso de ver outro ser humano dar-nos tão assertivamente a fórmula para a sobrevivência.

Hugo Picado de Almeida

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