Textos

As grandes cidades e as outras

Hyde Park, Londres, 27 Outubro 2014.

Hyde Park, Londres, 27 Outubro 2014.

As grandes cidades, maduras, sabem que precisam de parques dentro de si. Londres, Paris, Nova Iorque. Seguras que estão de serem grandes cidades, completas nas suas ruas congestionadas, nos seus mercados movimentados que semeiam cadáveres de madeira, plástico e cartão pelos passeios e pelo asfalto, nos seus transportes públicos entupidos de indivíduos de aparência e narrativas várias, nos seus museus grandiosos com o espólio dos invasores invadido agora pelos conquistadores do olhar, elas não temem assumir os parques como seus, acolhê-los no seu seio de tal forma que são já parte da malha sem a qual toda a peça se arruinaria.

As outras não. Por saberem talvez, no fundo, que não são cidades como as demais, temem dar espaço ao espaço dentro de si, como se entendessem que a escolha de um parque sobre um edifício acabasse desvirtuando-as. Como se um parque pudesse atestar o seu falhanço. Como se, no fundo, temessem que as raízes escapem ao canteiro, que a trepadeira não se contente com aquela parede, ou que aquele par de árvores possa um dia querer tornar-se floresta. As cidades menores vivem no pânico de alguém se dar conta de que não são cidades a sério. Espero que seja isso. Que outro produto da razão humana poderia levar alguém a preencher cada milímetro da cidade com um novo edifício, ao invés de um parque?

Hugo Picado de Almeida
[Hyde Park, Londres, 27 Outubro 2014]

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