Textos

Ainda o amor

Dante disse talvez a única coisa que acertadamente já se disse sobre o amor, quando nos inícios d’A Divina Comédia escreveu: «O amor, que a nenhum amado poupa o ter de amar…»

De resto, continuamos a escrever sobre o amor como desde que começámos a contar os séculos e, pior, querendo ainda que ele continue a ser aquilo que nunca foi. À força de o desejarmos e da importância que justamente lhe atribuímos, fizemos-lhe a desfeita de o catapultar para a esfera do divino, de erguê-lo como cúpula cristalina sobre o nosso edifício humano quando ele deveria ser o chão e as paredes que se partilham connosco ou o ar que nos envolve e compõe. Continuamos a insistir nele como uma sorte incrível, o predestinado encontro entre duas pessoas que não poderia senão dar-se, loucura estatística por entre a multidão dos potenciais amantes em órbita. É preciso perceber e assumir que nos apaixonamos por quem encontramos, claro, mas que nos poderíamos também apaixonar por quem encontraríamos se estivéssemos noutro lugar. Não há destino, há um acaso inicial, como o de qualquer encontro. Tudo o resto é que o fazemos dele. Tudo o resto acontece por nós.

Hugo Picado de Almeida

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