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L’Écume des Jours

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Não sei se Boris Vian o quis fazer, mas, tendo querido ou não, em A Espuma dos Dias Vian escreveu uma das mais belas histórias de amor de sempre. A de Colin e Chloé, mas também a de Alise e Chick, de algum modo. Uma história de amor talvez desajeitado, embora se possa defender que o amor sempre o é. Sem regras, sem porquês. Sem ciência, precisamente a que se interpôs entre Colin e Chloé sob a forma de um nenúfar alojado num pulmão e de um médico mais apoquentado pela beleza da femme de Colin do que pelas suas síncopes cardíacas desencadeadas pela planta em floração.

Chloé e Colin, Chick e Alise são talvez vítimas dos comuns que podem vitimar as relações — a saúde mata Chloé, o dinheiro destrói Chick –, mesmo na sua vida e no seu mundo muito pouco comuns, ou não tivessem todos os quatro saído do punho de Boris Vian. São poucos os filmes que fazem jus aos livros em que se baseiam, mas Michel Gondry conseguiu a proeza. Do mundo airoso, feito de arco-íris e cores saturadas, da voz doce de Chloé trauteando «Colin, Colin, Colin» e de sensuais danças desafiando a física vamos mergulhando numa tela desbotada, na casa progressivamente mais escura e apertada de Colin, acompanhando a sua crescente anorexia bancária e sentimental. O céu dá lugar ao pó, a tosse de Chloé varre os planos, o frio apodera-se de tudo.

O amor subsiste, porém, contra todos os males, não por acaso sob a forma dos milhares de ramos de flores com que Colin abafa Chloé, na ânsia de fazer medo ao nenúfar que lhe abarca e rouba o peito. Colin vende o seu pianocktail, dispõe-se aos trabalhos mais negros para salvar Chloé, despede-se de tudo quanto era a sua vida. Quando Chloé morre, nada mais resta, e tudo se precipita para o final. A cor esvai-se por fim, Alise perde-se, Chick é morto, e a música de Duke Ellington não soa mais.

Nem poderia, se Colin é afinal uma personagem de Vian, o autor francês que dizia que, na vida, só o amor com mulheres bonitas e a música de Duke Ellington mereciam ser preservadas. Tudo o resto, dizia ainda Vian, deveria morrer, porque tudo o resto é feio.

Hugo Picado de Almeida

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2 thoughts on “L’Écume des Jours

  1. Custódio diz:

    Na cor e na luz deste filme há um cuidado tão grande, tão extremo, que quase consegui ver(e ler) o suspense metódico e caótico do Boris Vian. Como no Arranca corações, a sensação de que cada vez as margens da história se tornam mais curtas, e as personagens têm menos espaço de acção, sem as terem menos freneticamente. Fica tudo circunscrito a um cantinho muito turbulento e barulhento de emoções. Grande filme.

    Agora só me resta o livro, para ler a progressão da cor (outra vez).

    • “Como no Arranca corações, a sensação de que cada vez as margens da história se tornam mais curtas, e as personagens têm menos espaço de acção, sem as terem menos freneticamente.”

      Não poderia aspirar a dizê-lo melhor, Custódio. É realmente um grande filme a partir de um grande livro.

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