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Amsterdam 123

Um destes dias, o shuffle do iTunes, afinal atento aos diferentes níveis de intertextualidade musical, serviu-me em sucessão a Amsterdam dos Imagine Dragons e a Amsterdam do incomparável Brel.

Depois de um automático aceno de cabeça, reconhecendo a curiosidade, calculei então que, muito possivelmente, a Amsterdam do belga e a Amsterdam dos norte-americanos serão a mesma. Na cidade imaginada pela banda americana, os dias não são auspiciosos: as desculpas sucedem-se, as dúvidas também, e a sensação que fica é que lá ao longe, depois da música terminar, não é provável que as coisas resultem bem para o protagonista. Enfim, muito à semelhança do que se passará no porto magistralmente narrado por Jacques Brel, nas suas cores saturadas como as gentes nele e nos cheiros e atmosfera densa de fumo e nuvens, abafada na calmaria dos que mesmo desfraldados ao vento a pouco podem aspirar, que ali estão presos como o lodo ao chão do cais. Mesmo no fulgor narrativo do Brel, na emoção visceralmente dedicada a cada palavra, a bruma não abandona o porto, os seus recantos continuam repletos de cheiros tristes e gente condenada, de uma forma ou de outra, a sobreviver, a permanecer como personagem-tipo na luz amarelenta que não alumia nada; que, como eles, é apenas presença.

Resta-me agora ir à verdadeira Amsterdam, a dos mapas, e descobrir se as três poderão afinal ser uma e a mesma.

Hugo Picado de Almeida

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