Crise, Política

Histórias a Metro #7

Beto, ex-jogador e director de relações externas do Sporting, disse um dia que, na crise do clube, todos são culpados. Carlos Silvino, conhecido nos media como Bibi, diz que, no processo Casa Pia, todos são inocentes. Habitualmente dizemos também que de noite todos os gatos são pardos, e no seu O Triunfo dos Porcos, George Orwell também pôde escrever que «todos os animais são iguais», pelo menos a dada altura.

Eu, como sou ciumento, quero também fazer uma afirmação de tão elevado gabarito e tão largo espectro, qual bom antibiótico; um curto conjunto de palavras capaz de prescrever boa cura, ou pelo menos análise, a toda uma realidade de gestos e de gentes. No Metro, todos são visionários. Pronto; disse. Não sei se é a visão do túnel que o inspira, ou o medo do comboio em sentido contrário, ou ainda o receio de que a cidade possa desabar sobre nós enquanto dizemos uma idiotice que seja recordada como nossas últimas palavras.

Passo então a ilustrar: Ontem, seguia na minha carruagem um rapaz que preconizava a curiosa existência de um velhote, algures para os lados do Rossio ou da Praça da Figueira, cujo modo de vida assentava no jogo de raspadinhas. Dizia o jovem que os rendimentos do provecto cidadão ascendiam, por mês, a mil euros ou mais. Gastaria, talvez, cerca de duzentos euros, mas o rapaz concedia ao homem todas as probabilidades, e comentava: «comprando 20 raspadinhas, de certeza que te sai qualquer coisa.» Parecia ao jovem um bom modo de vida, esse de arranjar a vida de moeda em riste, esmola invertida, já não na mão voltada para cima, mas para baixo, sobre superfície lisa, torturando os papelinhos para lhes extorquir uma boa maquia. Bem vendo as coisas, era, segundo ele, uma questão de capital para investir, e tinha razão. Só era pena que aquele jovem visse como bom projecto de vida ser profissional raspador de raspadinhas.

Dei por mim a pensar, porém, que aquele moço de ténis muito coçados na ponta, alargador enfiado numa orelha, mochila dependurada numa só alça, caindo-lhe do ombro sobre a camisola larga, poderia, afinal, muito bem ser um dos empreendedores — e, naturalmente, potencial candidato a usar “CEO” antes do nome — de que Portugal parece estar tão precisado. Ficariam felizes o Relvas e o Passos, o Gaspar e o Álvaro, e na próxima avaliação da troika já seriam felicitados pelas débeis criatividades que tiram os jovens do desemprego, assim como aquele passo de magia, próprio para animar pequenos-almoços num motel duvidoso, que são os estágios na função pública.

Hugo Picado de Almeida

 

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