Crise, Guerra, Política

Os violentos não são os que parecem

O único verdadeiro problema das manifestações violentas de hoje em redor da Assembleia da República são os manifestantes feridos e alguma propriedade de cidadãos anónimos destruída: os danos colaterais.

Que se agridam os polícias e que se tente atacar a própria Assembleia é perfeitamente compreensível, e será talvez a única forma de luta de que o povo dispõe verdadeiramente. É que a democracia resvalou para algo bem diferente, e entre a democracia actual e a utópica, não há uma partilha senão de nome.

É que os violentos, aqui, não estão no lado em que se pensa. São violentos, sim, os que mentem para vencer eleições, e que depois se dizem mandatados pelo povo. São violentos os que, numa retórica vazia, dizem que a culpa é de todos. São violentos os que, dizendo defender a democracia e o país, defendem grupos económicos e vendem o país a interesses que não são os dele. São violentos os que menosprezam o povo que deviam servir e respeitar. São violentos os que roubam o seu povo. São violentos os que o tratam como um bando de imbecis. E são também violentos os que carregam sobre o povo que juraram defender.

Por tudo isto, é preciso que o povo seja violento, pois os mesmos que lhe condenam a violência são os mesmos que o desapossaram dos meios pacíficos de que ele se poderia valer, subvertendo o sistema. Se, reduzida ao voto, a democracia já era nociva, porque insuficiente, agora foi realmente suspensa. É preciso que não nos deixemos iludir: quando as promessas eleitorais não só não são cumpridas como o que é concretizado é o seu contrário, o que acontece é apenas outra forma de fraude eleitoral, apenas uma forma velada de tomar o poder pela força, desrespeitando a escolha do povo. Assim, não é senão possível opor ao sistema a força, a violência. É que o sistema político como o temos devora todos os que na sua língua tentam bater-se. Já não é possível argumentar dentro do sistema, se o discurso político se reveste hoje da mais malabarista e desonesta retórica, do perene varrer de culpas e da imersão num vórtice de frases feitas, ataques repetidos, passados e repassados entre mãos simétricas como galhardetes.

O patife que temos por Primeiro-Ministro diz que a oposição incita à violência. A verdade, porém, é que ninguém incita mais à violência do que o próprio governo.

Pior ainda — e talvez não haja maior prova do comprometimento dos políticos de praticamente todos os quadrantes com o actual sistema — é ouvir políticos minimizar a violência de hoje, dizendo que é da responsabilidade de «profissionais da violência», «pequenos grupos de agitadores estrangeiros». O que está nas entrelinhas, claro, é que o povo português é pacífico, que não quer mal aos que o governam e que não ameaça ninguém, que não se revoltará, e que, na verdade, sabe que a austeridade é uma inevitabilidade. Dizê-lo é, novamente, desprezar os desejos e sentimentos do povo que deveria constituir a preocupação e base do sistema político, a sua razão de ser, o sustento das suas decisões.

É por isso que a democracia deve para nós ser uma utopia. Nunca nos podemos dar por satisfeitos perante algum dos seus graus ou ocorrências. É preciso revê-la continuamente, questioná-la quotidianamente com o fim de a actualizar e melhorar. Sentarmo-nos sobre a democracia, crendo-a segura, é dar espaço aos que se instalam e que a podem violentar. Todas as utopias atingidas acabam por se tornar distópicas. Hoje, temos as provas na mão. É preciso que tenhamos as pedras também.

 

Hugo Picado de Almeida

Anúncios
Standard

3 thoughts on “Os violentos não são os que parecem

  1. Isabel Rodrigues diz:

    Até gosto das suas crónicas, não desta em particular porque incita à violência, desrespeito pela democracia e atentado à liberdade individual e física de quem veste uma farda para defender o cidadão comum.
    Quanto às pedras vieram da esquerda disfarçada, ou melhor, vestida sob a égide da CGTP, com mulheres e crianças na frente das manifestações, e isso fez-me regressar aos velhos tempos do PCP e da Catarina Eufémia.
    Pobres de espírito e sem soluções credíveis de um futuro alternativo e melhor, como sempre.

    • Obrigado pelo seu comentário, Isabel, e lamento que esta crónica não lhe tenha agradado. Percebo as suas razões e espero que as próximas voltem a merecer o seu agrado, como me diz que tem sido no passado.
      Infelizmente, não podemos concordar sempre. Como referi no artigo, quem incita à violência, na medida em que é responsável por ela, não é senão o governo, que já não serve o povo, mas se serve dele, e sem qualquer pudor, extorquindo-o para lá de qualquer limite e sem sequer se deixar incomodar pelas mentiras em que sucessivamente é apanhado. Isto, sim, é o desrespeito hiperbólico pela democracia. Eu quero a democracia, mas como já dei provas suficientes no artigo, a democracia não é o que temos hoje, a não ser que nos satisfaçam as palavras por si, vazias como fachadas.
      Quanto à polícia, obviamente que não me agrada que se ataque a integridade física de cada polícia, individualmente, mas tenho forçosamente de perceber o porquê da polícia ser um alvo. A polícia é o poder visível, ao alcance dos cidadãos. Não duvide de que, se os políticos surgissem nas escadarias da Assembleia, seriam eles os visados. Mas eles escondem-se por detrás da polícia, que não é mais do que o braço armado do governo, e que por isso se torna alvo fácil da revolta popular. E a polícia também não é isenta de culpas. Até acredito, como muitos dizem, que cada polícia, enquanto cidadão, também esteja contra o governo, mas quando vestem a farda e fazem cordão em torno do Parlamento, os polícias não estão ali enquanto civis. E se querem que o povo os respeite e os veja como defesa do cidadão comum, como a Isabel lhes chamou — e que eu, noutra situação, concordaria; sempre achei, aliás, que a polícia é órgão fundamental de uma sociedade e que deveria ser mais bem tratada e detentora de mais meios para garantir a segurança dos cidadãos –, deveria abster-se de carregar sobre os cidadãos da maneira absurdamente selvagem e cruel com que o fazem. Têm capacetes e escudos do tamanho de um homem para se defenderem das pedras. Os cidadãos não têm nada que os proteja dos pontapés e dos cassetetes com que muitas vezes, até no chão, são agredidos por aqueles que juraram servi-los.
      Reafirmo: os políticos suvberteram o sistema e retiraram ao povo os meios para a democracia pacífica. E lamento-to. Mas que não o condenem agora.

      Agradeço a sua participação e respeito a sua opinião, mas esta é a minha.
      Espero qeu volte para ler os próximos artigos.

      Cumprimentos,
      Hugo Picado de Almeida.

  2. A violência não tem futuro, só se o futuro estiver no horizonte de dez anos ou menos.

    Para resolver o assunto em frente à assembleia, a polícia usou a violência porque esse é o modo imediato para resolver o problema. Não o resolve a longo prazo.

    O problema que temos em mãos não se resolve atirando pedras a polícias. Eles, como nós, são cidadãos, vivem exatamente o mesmo problema que qualquer um de nós.

    O que enfrentamos não se soluciona com violência porque o futuro de Portugal não é de curto-prazo. Obviamente que não se escorrega na ingenuidade. A violência é um dos caminhos possíveis, porque o desespero é real, sobretudo nos jovens onde o desemprego já ultrapassa os 35% em Portugal. E não vendo caminho, decidem-se pela violência.

    Contudo, se recuarmos um pouco haveremos de encontrar soluções que abanem o dito “sistema” para que se encontre uma solução que seja partilhada, consensual, abrangente, transparente. De facto, caímos do outro lado, quando quisemos evitar o comunismo: uma ditadura do proletariado em que o individual desaparece. Tornámo-nos desumanos, centrados no próprio eu, egoístas e soberbamente desconfiados.

    E se na minha opinião, é importante a ideia de solidariedade e tolerância, também o é a da humanização, bem como a da transparência, do individual e da confiança na pessoa. Portanto, parece-me que a coisa vai estar no equilíbrio entre o individual e o coletivo. Não sei em que ponto exatamente, mas que Portugal, a Europa serão conceitos muito diferentes no futuro a dez anos disso tenho a certeza.

    Quanto menor violência tanto melhor, mas temo que se chegue a situação de guerra, porque o ódio e a raiva começam a criar raízes naqueles que desesperados, já nem prato têm.

    Outro assunto que cruza este é a questão da sustentabilidade do atual modo de vida europeu/ocidental. A crise passa por ai também. E ainda pelo facto de, povos extremamente pobres estarem hoje com melhor nível de vida. Isso, significa que a Europa não pode continuar com este níveis de gastos energéticos e ambientais como até aqui. E suponho até que o limite de sustentabilidade tenha sido já ultrapassado e que o assunto seja já mundial e não ocidental.

    A crise, com ou sem violência, servirá para que nos recentremos no que queremos, e naquilo que é importante. O que queremos? Que Europa queremos? O que é importante? A não ser que queiramos uma sociedade desumana, autocrática, intolerante, insustentável, desconfiada, como já aconteceu no passado. Provavelmente será por esse drama que teremos de entrar novamente antes de nos apercebermos do que necessitamos de fazer.

    Sempre que um projeto se apresenta solidário, tolerante, humano, sustentável, num equilíbrio entre o coletivo e o individual, tenho tendência a dizer que sim. Ao contrário, tendo tendência a construir um tricheira.

Escrever um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s