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Lisboa, 2012 – Berlim Oriental, 1984

Há já alguns anos que alguém anda por Lisboa a assinar “CMS” com tinta preta nas paredes.

E eu, de cada vez que encontro o escrito, lembro-me invariavelmente do filme A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen), de Florian Henckel Von Donnersmarck. Nele, o acrónimo “CMS” surge frequentemente, como código para Christa-Maria Sieland, actriz, utilizado pela Stasi nos relatórios de vigilância elaborados sobre Georg Dreyman, dramaturgo e namorado de Christa.

Apanhada nas teias de um regime em agonia, despótico, corrupto, e que não cessa de olhar sobre o ombro, onde as aspirações pessoais dos seus altos-membros mobilizam e subordinam o aparelho do Estado, CMS — a do filme –, é forçada a uma relação sexual com o Ministro da Cultura sob várias ameaças, e que resultam na vigilância contínua do seu namorado, Georg Dreyman, com o objectivo de o acusar daquilo que se afigure possível e de o eliminar enquanto adversário amoroso do Ministro. O desenrolar do filme opera tragicamente sobre o destino, já de si cruel, de Christa, levando-a a denunciar o próprio Dreyman — ameaçada com o fim da sua carreira –, acto que precipitará a sua morte acidental ao fugir de casa por não suportar que o escritor tenha descoberto ter sido ela a denunciante.

Gosto de pensar, então, que esse “CMS” de Lisboa não é apenas mais uma assinatura suburbana, dessas que não dizem nada e só tornam feias as paredes puramente devido a uma série de noções confusas entre tribo e território e sociedade e espaço público, mas que o seu autor vai procurando, assim, manter viva a memória da personagem, recordando a quem passa que os Estados podem muito bem destruir aqueles que neles vivem.

 

Hugo Picado de Almeida

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2 thoughts on “Lisboa, 2012 – Berlim Oriental, 1984

  1. andámos a pensar que a DEMOCRACIA era por si a organização mais apetecida, por isso, defendida, quando percebemos, mais tarde, que o FASCISMO, dizíamos uma doença erradicada na primeira metade do século, existe e pode assumir o tamanho de um estado ou de um império e que sob o nome de uma pessoa apenas, o ditador, muitos outros vivem vidas inteiras a esmagar outras com o seu despotismos e vontade de poder.

    Dizem, que o poder é uma emoção tão maior como outras. Desconheço. Nunca o senti. Mas já vi fazê-lo, e todos os dias vejo disso, desde crianças a adultos. Será que o fiz também? Não sei porque o fazemos, nem sei se é uma doença ou um defeito, ou se fruto de alguma raiva escondida/esquecida. Suspeito que levada aos extremos resulta numa DITADURA ou numa fábrica de extermínio. Houve, há e haverá.

    Foi isto que senti ao ler este “post”.

    • Obrigado pelo seu comentário, Franz. Penso também que não se deve olhar para a Democracia como utopia atingida, mas como isso mesmo, utopia. E, por isso, ela deve ser constantemente questionada, melhorada, actualizada; deve estar em revisão permanente e nunca sentar-se confortavelmente, pois esse é o momento em que os abusos de poder se instalam e a subvertem, e a fazem derrapar para outra coisa bem diferente e nociva.

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