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A crise é existencial

O problema da crise é um problema de posse e um problema de direcção, ou, pondo-o noutros termos — em que até os salafrários governativos o possam compreender –, um problema de natureza humana e de extorsão.

Gabriel Marcel, no seu existencialismo católico (a segunda parte não conta com o meu voto, mas os conceitos a que me refiro aqui podem ser tomados apenas na sua veia existencialista, daí seguindo à esquerda na bifurcação e afastando-nos das conclusões transcendentais do seu autor), atribui notório relevo aos conceitos «Ser» e «Ter». Dizia ele que «Nós somos nós mesmos, mas temos o que é diferente de nós. O diferente é nosso, mas não nós mesmos.» Porém, «é curioso que o homem tenha tendência para perder o seu ser no seu haver, quer dizer, o que ele é no que ele tem, o eu no meu, ou o nós no nosso. Esta tendência é de sentido degradante».

Marcel aponta, portanto, à confusão do Ser, do espírito, do intelecto que se estende — e se perde, inebriado — na materialidade das suas posses, dos seus objectos, talvez até do seu corpo em alguns usos. O Ser que se perspectiva através do embevecimento pelo que possui. É o materialismo prático, quotidiano em acção. É uma confusão de valores. É um ataque feio ao Humanismo.

Hoje dizemos, por vezes, brincando com a palavra da moda, a «crise», por associação a sonoridades mais comuns e cuja gravidade parece ter sido abalada pelo discurso do senso-comum ou de uma literatura demasiado popular, que a crise é existencial. Acontece, porém, que ela o é mesmo.

O Homem perde-se no seu haver porque é nele convertido, para que o Estado o possa melhor absorver e entregar à corrente sanguínea de um sistema viciado em dinheiro. Afinal, para uma Europa capitalista, materialista, esquecida dos seus valores ontológicos — se alguma vez os teve verdadeiramente –, novamente convertida em CEE e talvez nem mesmo isso, pois então, por que razão haveriam de existir preocupações com o «Ser»? Estado Social, se o que importa já não é a sociedade, mas sim a riqueza que ela detém e da qual se pode desapossá-la — Sociedade Estatal, talvez? Sistema Nacional de Saúde, se o que se procura é sovar os corpos e espremer-lhes os seus produtos? Segurança Social, se o desejado é o sustento seguro que a sociedade pode entregar a quem a governa, aparente ou veladamente — Segurança Capital? É assim, enfim, que o Estado nos vai aniquilando, roubando-nos aquilo em que nos estendemos, aquilo em que comummente nos concretizamos, e até o corpo que é nosso para que nos possa ser apreendido. O problema dos Estados, hoje, é que se tornaram despóticos, quer o queiram admitir ou não: é sinal das ditaduras apagar o «Ser» dos seus cidadãos, dividindo-os consoante os «Ter» que têm, para só nessa condição os assimilarem.

Só o «Ser» pode resistir, entrincheirado no fundo do corpo, onde a mão do Estado não pode chegar. O problema da extensão do «Ser» no «Ter» é esse: ele expõe-se, sai de si, torna-se vulnerável à superfície. Restará, porém, saber se o «Ser» pode subsistir remotamente isolado do «Ter».

 

Hugo Picado de Almeida

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